Um solteirão da província

“Não conheceste o Valongo”, disse tio Adam. “Usava terno e gravata até nas tardes mais calorentas de agosto... A gravatinha borboleta parecia um coração de rubi, abotoado no pescoço. Era outra época, as pessoas liam poesia, escutavam Mozart e Noel Rosa, e diziam palavras em desuso hoje em dia: com licença, muito obrigado, por gentileza...”

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2016 | 02h00

“O que ele fazia?”

“O Valongo? Cultivava e vendia orquídeas da floresta...”

“Orquídeas?”

“O orquidário do grande fotógrafo alemão George Huebner. Em 1935, quando Huebner morreu, Valongo cuidou do estúdio fotográfico e do orquidário. O estúdio durou pouco tempo, mas o orquidário e as fotografias sobreviveram. Vi fotos maravilhosas no livro do teu amigo Andreas Valentin. Índios de várias etnias e regiões fotografados no estúdio de Huebner, aqui em Manaus. Mas Valongo nunca saiu da cidade. Dizia que o alemão tinha viajado por ele, e que as imagens do fotógrafo bastavam. A gente se conheceu numa tarde de 1956... Valongo circulava pela praça da Saudade... Um velho elegante, vestido na pinta, segurando flores de uma orquídea... Aliás, mais galante que elegante. Acho que ele foi com a minha cara e me pagou uma cuia de tacacá. Nossa amizade começou nesta praça, ali perto do caramanchão, onde ficava a banca de tacacá. Valongo tomava duas cuias fumegantes, o suor escorria pelo rosto e molhava a gravatinha vermelha. Quando mastigava as folhas de jambu, o olhar parecia imergir num sonho lúbrico. No finzinho da tarde, ia oferecer flores de orquídea a uma aluna da Escola Normal...”

Morava no centro?

“Numa casa na Joaquim Nabuco, perto da antiga Renascença, o armazém de secos e molhados. Morava sozinho, com as orquídeas e as lembranças. Cultivava orquídeas no quintal, as mesmas espécies que ele tinha visto na chácara de Huebner. Uma vez, disse que a paixão era uma loucura ardilosa, e que as orquídeas que oferecia às moças, na verdade eram oferecidas a uma única mulher, uma viúva que tinha se mudado para o Rio de Janeiro. Fui um covarde, Adam, ele disse, com ar de arrependido. Não sei se falava sério, porque a voz era burlona... Eu tinha uns vinte anos, e ele, a idade que tenho hoje: oitenta. Na casa da Joaquim Nabuco, aprendi a admirar fotografias, orquídeas, lindas trepadeiras... E um dia, uma tarde de 1960, Valongo me chamou para contar um segredo.”

Qual?

“Fiz a mesma pergunta”, riu tio Adam. “Era o segredo do cofre. Um cofre alemão, verde-escuro... Valongo revelou o segredo, mas não abriu o cofre. Revelou também que tinha dois sobrinhos, que raramente o visitavam. Aí, sem mais nem menos, disse que ia dormir um pouco, e que amanhã a gente se encontraria na praça da Saudade. Não, ele não queria tirar um cochilo, queria morrer. E morreu mesmo... Morreu naquela tarde, quase noite... E aí conheci os dois sobrinhos no velório, herdeiros da casinha e do orquidário... Olhavam o morto, mas pensavam no cofre. Desconfiavam que eu tinha o segredo... E ficaram nervosos quando leram o testamento.”

E o que dizia?

“Estava escrito que o dinheiro guardado no cofre deveria ser dividido entre os sobrinhos, e os papéis ficariam comigo. Abri o cofre na presença dos dois marmanjos e de um advogado. O dinheiro era uma mixaria, um valor tão baixo que revoltou os herdeiros. Os papéis eram mais valiosos: sete cartas para uma mulher e uma fotografia dessa mesma mulher com o Valongo. Um bilhete pedia para que eu enviasse as cartas e a foto para um endereço no Rio. Uma casa na Tijuca. E eu fiz isso. Fiz por amizade, e também por uma história de amor. A foto antiga dizia muito... No avesso da fotografia, li esses versos que nunca mais esqueci:

“Minha alma se embriaga/E eu nem preciso beber o vinho do enlevo e do amor/Tua beleza é êxtase/E o teu corpo, meu único abrigo...”.

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