Um raro virtuosismo em Ouroboro, de Luis Garay

Finalmente, Luis Garay aporta em São Paulo. Em 2009, ele já havia apresentado Manieres, um solo impecável com Florencia Vecino, em Belo Horizonte, no Fórum Internacional de Dança-FID, e no Rio de Janeiro, no Festival Panorama. Na semana retrasada, no Sesc Belenzinho, além da passada, mostrou também outra coreografia, Ouroboro, obra ainda inédita no Brasil, criada para quatro bailarinos mais que excelentes.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2011 | 00h00

A mesma Florencia de Manieres, e mais Nicolas Poggi, Roberta Menzaghi e Ivan Haidar são artífices com uma qualidade rara de se encontrar nos palcos. Cada gesto, cada respiração, cada ação tem a precisão e o acabamento de um ourives atento para cada um dos mínimos detalhes. O controle é tão absoluto que dele nasce uma poesia castiça.

Ouroboro remete ao Balé Triádico que Oskar Schlemmer (1888-1843) estreou em 1922, no Teatro Municipal de Jena, na Alemanha. Com ele, deu forma ao que se tornaria a linguagem do teatro da Bauhaus, escola de design, arte e arquitetura que funcionou em Dessau, também na Alemanha, entre os anos 1919 e 1933.

Obra aberta. Entusiasmado pelo famoso texto que Heinrich Von Kleist (1777-1811) escrevera em 1810, sobre o teatro de marionetes, Schlemmer transformou os bailarinos em formas geométricas e o seu Balé Triádico em uma obra aberta. Realizou montagens sucessivas até 1932, usando figurinos, máscaras e objetos para testar outras percepções do corpo no espaço (www.schlemmer.org). E desenhou roteiros gráficos minuciosos, antecipando a tecnologia 3D, como propõe Lúcio Agra, pesquisador estudioso da sua obra.

Luis Garay, colombiano radicado em Buenos Aires, monta o que chama de "um sistema em constante mutação". Sem nada além dos quatro corpos dos admiráveis intérpretes, realiza uma aula master de composição.

O exercício é árido, pede muito de quem assiste, pois nada oferece além de linhas, direções e níveis de realização de movimentos. É preciso uma paciência atenta para ir percebendo que a partitura de gestos de cada um dos quatro vai conversando com a dos outros e, ao mesmo tempo, escavando volumes no espaço.

Recursos. É uma espécie de atualização que repropõe, quase 90 anos depois, o pré-3D produzido por Schlemmer. Mas agora, sem qualquer outro recurso que nos distraia, pois não nos oferece nada além do corpo, Garay nos faz ver como é da repetição que surge o diferente.

É de um virtuosismo raro, tanto na realização dos bailarinos quando no planejamento deste Ouroboro, um verdadeiro manifesto coreográfico, que o confirma como um dos mais promissores talentos na dança que se produz hoje.

Uma habilidade suprema em manifestar que aquelas marionetes estão agora tecnologizadas, e vivem nas figuras das telas que colonizam a nossa percepção. Bem como em produzir aquele tipo de beleza que irrompe de onde menos se espera, regando o rigor da sua composição.

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