Um novo ritmo para Nélson

Edição cinematográfica marca Toda Nudez Será Castigada de Antunes Filho

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2012 | 03h11

Há o Bailarino Solitário, que faz lembrar Nélson Rodrigues, O Eterno Retorno, de 1981. Também a morte de Geni remonta ao enterro de Zulmira, em Paraíso, Zona Norte (1989). Mas a versão de Toda Nudez Será Castigada que estreia hoje no Teatro Anchieta traz um frescor à altura de seu realizador, Antunes Filho. As referências são complementos e reforçam a condição de Antunes como um estudioso em eterna ebulição da obra de Nélson Rodrigues.

"Creio que esta seja a minha melhor versão do Toda Nudez", comenta o diretor, que já utilizara a peça no Eterno Retorno e também em Nélson 2 Rodrigues, de 1984. "Agora, aprofundei a sintaxe cinematográfica, ou seja, a edição das cenas tornou-se mais precisa, com sobreposições que ficaram mais legais."

Também o texto ganhou a devida importância, com as palavras ganhando articulação e interpretação. "Duvido que alguém vá deixar o teatro dizendo que não entendeu determinada fala", desafia Antunes, que fez ligeiros cortes no texto ("Apenas o que realmente ficou datado"), permitindo que a tragicidade e o mergulho no inconsciente do texto de Nélson sejam valorizados na devida proporção.

Toda Nudez Será Castigada encaixa-se entre as tragédias cariocas, segundo a já famosa classificação proposta pelo crítico e ensaísta Sábado Magaldi à obra de Nélson Rodrigues. Conta a história do viúvo Herculano (Leonardo Ventura), disposto a viver em luto eterno pela mulher, e de seu filho Serginho (Lucas Rodrigues) que, aos 18 anos, passa os dias no cemitério e é "impotente como um santo", na definição das três tias (Mariana Leme, Fernando Aveiro e Naiene Sanchez).

A rotina da família transforma-se radicalmente com a chegada da prostituta Geni (Ondina Clais Castilho), apresentada a Herculano por seu irmão, Patrício (Marcos de Andrade), na esperança de que ele esqueça a esposa morta. Desse primeiro encontro entre o viúvo e a prostituta - que dura 72 horas - surge uma relação doentia, no melhor estilo de Nélson.

Considerada sua última grande peça, Toda Nudez traz uma temática forte e uma estrutura dramática madura, além de personagens recorrentes na obra do dramaturgo, como o canalha absoluto (Patrício), as tias carolas e castradoras, o filho dominador e, principalmente, a prostituta, que tanto oscila como uma figura degenerada como uma mulher doce e sensível.

"Nélson rodeia seus personagens de fantasmas", comenta Antunes Filho. "São os mitos, os arquétipos, que tornam ainda mais complexas as relações." Daí sua especial preocupação com a palavra ou, no entender do crítico Sebastião Milaré, em como tornar a palavra funcional, "preservando-lhe os sentidos simbólicos e sem lhe castrar as contradições".

A resposta é dada pelo próprio encenador que, nos últimos anos, vem desenvolvendo a técnica vocal que julga ideal para o ator em cena, a ressonância. "Quando o ator projeta a voz (como a maioria costuma fazer), a pausa não é pausa, é parada para respiração. Na projeção, ele é obrigado a respirar em cada palavra. Na ressonância, eu falo uma porção de tempo sem respirar. Tirei tudo que é gordura de ar", ensina.

Na verdade, a voz é uma espécie de alavanca, pois o corpo é quem fala pelo gestual, culminando na ressonância. "Frequentemente deparamos com encenações de obras de Nélson Rodrigues em que os criadores se deixam levar pelo pitoresco das expressões e situações, banalizando as palavras e ignorando os abismos que nelas se ocultam. Pode até ficar 'engraçadinho', mas nada tem a ver com a poética vulcânica de Nélson", comenta Milaré, em texto especialmente escrito para a montagem. "Nela, a palavra é arma de difícil manejo, mas letal, em todos os casos. E é para os abismos das palavras que Antunes conduz seus atores nesta versão de Toda Nudez Será Castigada."

O cenário, como é de se esperar, é escasso: uma grande mesa e suas cadeiras bastam. Os móveis, aliás, encontram-se próximo da plateia, criando a intimidade necessária. Com esta montagem, Antunes festeja devidamente o centenário de nascimento de Nélson Rodrigues e os 30 anos do Centro de Pesquisa Teatral, que dirige.

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