Um estranho no ninho

No banheiro mais do que lotado, todas queriam ver o prioritário que quebrara as regras

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2018 | 02h00

Envelhecer é bom. Você vai deixando de lado certos preconceitos, vaidades, hábitos mesquinhos. Deixa de fazer perguntas sem sentido. Ou faz muitas. Percebe que tem mais coragem, a ponto de cometer desatinos para o comum dos mortais. Quem envelhece deixa de ser um mortal comum, perde a vergonha, a timidez, jamais cogita: o que vão pensar de mim? Pensem o que quiser. 

Há pouco, no Aeroporto de Guarulhos, mal peguei a mala (de rodinhas, leve, claro) senti necessidade de ir ao banheiro. Daquelas, urgente, improrrogável. Indaguei, ficava na outra ponta, eu não chegaria em tempo. Aliás, aquele aeroporto foi feito para esportes radicais, olímpicos: para embarcar ou desembarcar, você percorre quilômetros, sendo que vez ou outra tem uma esteira rolante.

Sem esquecer, isso é essencial, aquele metrô que diz: Aeroporto de Guarulhos. Não é verdade. Ele vai do nada a lugar nenhum. Imagino quem apanha sua mala e quer seguir de trem de metrô. Há não sei quantas baldeações. E você puxando a mala. A estação final, ao contrário dos aeroportos modernos e civilizados do mundo, não chega embaixo dos terminais de embarque. Parece que houve desentendimento, e você é despejado bem antes, apanha sua mala e procura uma van ou ônibus, Uber, bicicleta, moto, o que estiver ao alcance. Enfim, coisas de Brasil. E se estiver chovendo, ventando, garoando, fazendo frio? Azar o do passageiro. O metrô que não vai para o aeroporto é a coisa mais esquisita que já vi em muitos anos de vida e viagens.

Voltemos ao assunto. Eu ali, aperto terrível, à procura de banheiro. Havia um para deficientes, avancei. Ocupado. Vi que o feminino estava ao lado, entrei, as mulheres, me olharam mais surpresas e irônicas do que indignadas. “Desculpe, o senhor errou, aqui é feminino”, me informou uma senhora. Por um segundo, quase vi a pergunta aflorando em seus lábios: “A menos que o senhor seja trans”. E eu: “Me perdoe, sou homem - seja lá o que isso signifique hoje - mas há necessidades que não nos fazem pensar se somos homens ou mulheres. Por favor, serei rápido, discreto, educado. Não olharei por baixo das portas. Considerem-me um prioritário, que necessita a todo custo usar o banheiro agora. O momento é fatal”.

O que elas fizeram? Gritaram, Time’s Up e investiram contra aquela frágil figura masculina que se curvava ante o aperto? Não, riram, me indicaram uma porta, disseram “vai logo, vigiamos”. Uma delas se atreveu: “Não faça xixi fora da bacia, como todos os homens”. Entrei, elas ouviram lá fora aquele suspiro de alívio dos que se safam em cima da linha de chegada, riram. Terminei e ao sair dei com o banheiro mais do que lotado, todas querendo ver o prioritário que quebrara as regras.

Abriram alas, lavei as mãos, uma senhora em tailleur Chanel abriu a bolsa, tirou um fino lenço com monograma (há quantos anos não vejo monograma nas roupas?) e me ofereceu. Um lenço levemente perfumado. Imaginei: “Talvez possamos aqui iniciar uma grande amizade”. Ou então, quem sabe, esta senhora de cabelos platinados, bem cuidados, olhando para mim, ousasse me indagar: “Por que, entre milhões de banheiros públicos no mundo o senhor foi entrar justo nesse?”. Esta foi para os cinéfilos.

Enxuguei as mãos, devolvi o lenço: “Se a senhora me der o endereço, lavo, embalo e levo à sua casa. Só não sei que perfume é esse, tão delicado”. E ela: “Nem pensar! Foi um prazer”. Despedi-me e virei-me, mas antes tive tempo de ver que a mulher segurava o fino lenço, sem saber o que fazer. Ao sair, disse “obrigado mulheres, o mundo é de vocês”. E elas: “Nós é que agradecemos, o senhor é um homem moderno. No futuro, essa será uma diferença a menos entre todos. Este foi um instante histórico. Podemos tirar selfies?”. Preferi negar. Sou encabulado, recatado, do lar. Ao sair, agradeci de novo e comentei: “Pois é senhoras, essa situação tem que ser mantida”.

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