Um craque na sombra

Antônio Maria foi um craque da crônica. Mas quem sabe disso, se não se acha um livro dele?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 03h00

Em duas ocasiões, nas últimas semanas, tive o prazer de ver e ouvir o Luis Fernando Verissimo, e em ambas, o assunto sendo a crônica, ele pôs nas alturas o Antônio Maria. Um dos maiores, senão o maior, disse esse homem de poucas e exatas palavras. E olha que se trata de um gênero em que cintilam Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, além do próprio Verissimo. Por pouco não intrometi minha colher no papo, para endossar, com entusiasmo, a avaliação do colega gaúcho. Um baita cronista, sem dúvida, o Antônio Maria. Mas quem sabe disso, se o que esse pernambucano do Recife escreveu é hoje tão difícil de encontrar? Corro o risco de estar aqui falando de alguém que para muito bom leitor é um desconhecido, ou quase.

Até por isso, recomendo sair imediatamente à caça de umas tantas coletâneas, peneiradas entre as milhares de crônicas que o Maria (assim o chamava seu cupincha Vinicius de Moraes) deixou esparsas no varejo dos jornais. Será preciso recorrer aos sebos e bibliotecas, pois há muito não vejo nas livrarias um título sequer desse escritor que não chegou a ter nas mãos uma obra sua.

Quando, na madrugada 15 de outubro de 1964, um infarto o apagou, na porta de uma boate em Copacabana, Antônio Maria Araújo de Morais tinha apenas 43 anos, e levara vida tão trepidante que talvez nem tenha tido tempo de pensar seriamente na consolidação em livro do melhor daquilo que deixava pingar no dia a dia da imprensa. Cronista do primeiríssimo time, acabou não tendo, como escritor, o reconhecimento que teve o compositor Antônio Maria, a quem devemos preciosidades como Ninguém me Ama, Manhã de Carnaval, Suas Mãos, O Amor e a Rosa, Se eu Morresse Amanhã, Menino Grande e Canção da Volta.

A primeira reunião de seus escritos, O jornal de Antônio Maria, saiu em 1968, com seleção de Ivan Lessa, apresentação de Vinicius e prefácio de Paulo Francis. Mesmo com o endosso desses pesos pesados, o livro esperou 12 anos para ter uma segunda e até hoje última edição. Depois viriam Pernoite (1989), Com vocês, Antônio Maria (1994), Benditas sejam as moças (2002) e Seja feliz e faça os outros felizes (2005), os dois últimos organizados por Joaquim Ferreira dos Santos, jornalista e cronista a quem devemos ainda o delicioso perfil Um Homem Chamado Maria, de 2005, além da edição de O Diário de Antônio Maria (2002), caderno escrito entre 12 de março e 19 de abril de 1957.

Todos estes livros, com variável fartura, estão disponíveis na Estante Virtual, cujo site visitei minutos atrás. Lá encontrei também uma seleta magrinha (77 páginas) que não conheço e cujo título, pra lá de preguiçoso, é Crônicas. Na Estante e nas livrarias, tenho visto a antologia Bom Companhia: Crônicas, que organizei para a Companhia das Letras e na qual se pode ler um Antônio Maria da melhor safra, “O Coração dos Homens”, sobre um doído encontro casual de antigos amantes. “Como é melancólico”, constata o cronista, “chegar-se à paz tão perfeita de se perguntar pela saúde da pessoa que se amou.”

É o amor, por sinal, ao lado do humor, um dos temas obsessivos de Antônio Maria, não tivesse ele vivido paixões crepitantes. Uma delas, efêmera, foi nos braços de Danuza Leão, que, no auge da beleza, deixou um casamento, rendida aos improváveis encantos daquele homem gordo, feio, suarento e descuidado no vestir-se. Na batalha da conquista, o sedutor Maria não contava com seu visual quase inóspito. Limitava-se a pedir à moça que lhe desse 15 minutos de conversa. “Sou vaidoso”, escreveu, “mas não tenho outras belezas senão as do meu espírito.”

Podia às vezes não levar, mas nem por isso esmorecia: “Que as coisas não deixem de acontecer dentro de mim”, pediu certa vez, “mesmo quando quase tudo me for negado no mundo em volta.”

No final da vida, estava sozinho, e não se conformava. “Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá”, escreveu Antônio Maria numa de suas últimas crônicas, e desafiou: “Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a história?”

Há nesse texto um grão de humor tristonho – a descoberta de que na solidão só há uma vantagem, a de poder ir ao banheiro com a porta aberta – e altas doses de amargura: “Mas isso é muito pouco para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.”

Um terceiro e definitivo infarto o levaria menos de uma semana depois.

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