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Ruth Manus

05 Fevereiro 2017 | 02h00

Carlos era um homem, uma vez que esta foi a classificação feita pela ciência e atestada pelo médico no dia do seu nascimento em 1959. Homem. Mas além de homem, Carlos classificou a si próprio dentro de uma outra subdivisão, criada pelo senso comum, ratificada pela igreja e coroada por sua consciência: ele era um bom homem. Carlos gostava de dizer em voz alta “sou mais do que um homem, sou um bom homem”. 

Carlos tinha a certeza de reunir as duas características mais elevadas que um ser humano poderia ter na sua visão: era homem e era bom. Homens que não eram bons mereciam seu desprezo. Mulheres, para ele, só eram analisadas na ótica de boa esposa, boa mãe e boa filha. Era, ao mesmo tempo, o mínimo e o máximo que Carlos via numa mulher.

Era engenheiro um de classe média alta, casado, trabalhador, pai de três filhos, católico. Esforçou-se muito para encaixar-se no padrão de bom homem. Tinha uma pequena empresa de engenharia, com 9 empregados. Sonegava impostos para que a empresa sobrevivesse. Não pagava horas extras nem adicional de insalubridade, uma vez que se o fizesse as contas da empresa não fechariam no fim do mês. Mas, curiosamente, sobrava dinheiro para jantar no Eataly, para levar a família para Miami e Trancoso, bem como para as revisões da sua Tucson.

Amava sua mulher. Nunca deixou que nada faltasse em casa. Seu nome era Márcia e Carlos considerava-a uma “boa esposa”, uma vez que cuidava da família, da casa e não reclamava dos dias em que ele chegava tarde, afinal, a carne era fraca e a Márcia já tinha passado dos 50. Carlos era um bom homem, vítima do corpo da mulher que já não era o mesmo depois de 3 filhos e vítima do oportunismo e do charme da assistente do seu contador, com quem mantinha um caso nos últimos anos. Carlos tinha a certeza de que um bom homem é sempre vítima.

Carlos educou bem os filhos. Gritou frases de ordem como “menino não chora”; “isso não é roupa para filha minha”; “arte não é carreira”; “filho meu não perdoa um bom par de pernas” e “se eu souber que você está dormindo com aquele vagabundo, você já não é minha filha”. Batizou, mandou fazer primeira comunhão e crismou. Nunca teve tempo para brincar com eles, porque julgava que o papel de um bom pai é prover e, chegando em casa, só queria o controle remoto.

Era politicamente ativo. Sabia do que estava falando. Chamava o governo de “aquela corja”, dizia que os partidos eram todos a mesma merda, chamava tudo o que não fosse conservador de comunista e protestava contra a corrupção vestindo uma camisa da CBF, instituição menos corrupta do País. Carlos não era de direita nem de esquerda. Vivia uma certa crise, pois gostava do quanto a empresa lucrava no governo Lula, mas não gostava de dividir o voo para a Bahia com empregadas domésticas que iam visitar a família. Gostava do Fernando Henrique, mas achava que sociólogo era profissão de vagabundo maconheiro. Dilma ele não se dava o trabalho de avaliar, pois não era a boa esposa de ninguém. Em relação a Temer ele tinha lá suas dúvidas, mas aplaudia de pé aquela maravilha de mulher que ele tinha. 

Carlos era um bom homem. Era a favor da vida. E a favor da pena de morte. Era um homem coerente, acima de tudo. Carlos orava pela mãe da sua secretária, que tinha sofrido um AVC. Abominava toda forma de violência, sobretudo a sexual, pois tinhas filhas mulheres. Era um bom homem.

Nesta semana Carlos riu muito da prisão de Eike Batista e torceu para que ele virasse a “boneca” do presídio, para aprender a lição. Carlos comemorou o AVC de Dona Marisa. Propôs um brinde. Comemorou ainda mais a sua morte. Disse “tchau, querida”. Carlos era um bom homem. Frequentava a igreja, era contra a violência, contra a corrupção e a favor da vida. Carlos era um bom homem.

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