TV: espelho meu

HBO exibe Supermodelos, Antes e Agora, documentário que ouve divas sobre drogas, fama e a arte de envelhecer

RUTH LA FERLA , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h09

Muito juvenil, com a camisa amarrada na altura da cintura, Isabella Rossellini olha para a câmera. É claro que envelhecer é uma lástima, admite. "Meu status social declinou, não sou mais convidada para as festas mais badaladas. Minha filha, sim. As pessoas envelhecem e deixam de ser importantes." Ela, então, solta uma risada amargurada, legado de toda uma vida de altos e baixos na frente das câmeras.

Sua mais recente atuação, captada pelo fotógrafo e diretor Timothy Greenfield-Sanders, é responsável em parte pela sinceridade do documentário About Face: Supermodelos, Antes e Agora. O filme - que estreia no Brasil amanhã, na HBO - explora o que está por trás das fachadas meticulosamente preservadas de algumas das beldades mais celebradas dos últimos 50 anos.

Jerry Hall, China Machado, Marisa Berenson e Lisa Taylor são apenas algumas das lendas da passarela que se esmeram em comentários engraçados ou melancólicos, tratando de temas candentes como o racismo, a dependência de drogas, a autoimagem, idade, moda, e, evidentemente, tabus assustadores.

O tema despertou a atenção do realizador, ansioso por analisar "o poder da beleza e da fama", e o que "essas coisas produzem no ego de uma pessoa quando deixam de existir". Assim, o projeto que se originou como um serviço fotográfico para a revista Vanity Fair passou a ser explorado para algo mais. "Afinal, essas mulheres ainda estão ali, ainda gostam de se vestir bem e tentam ser alguém", diz Greenfield-Sanders. "Mesmo com a consciência de que seu momento passou, elas não querem desistir."

"Mulheres lindas que envelhecem são um tema fascinante", diz a produtora Sheila Nevins, principalmente quando sempre dependeram do aspecto exterior para viver. "Elas são seu próprio instrumento de trabalho."

"Quando você trabalha explorando o seu aspecto físico, torna-se o oposto de uma pessoa autoconfiante", diz Paulina Porizkova, ex-superstar de origem checa. "No entanto, acho que qualquer garota de 15 anos não deixaria escapar a chance de ser chamada de linda. Naquele momento, você não se dá conta de que também será chamada de feia."

Preterida nas sessões de casting por causa dos dentes ou das coxas, Paulina estava horrorizada. "Achava que cada trabalho seria o meu último", afirmou. Por depender de uma estrutura tão frágil, seu amor próprio ficou comprometido. "O que as pessoas consideravam assédio sexual, para nós era um elogio."

Nem todas as mulheres do documentário de Greenfielf-Sanders se mostraram tão afáveis. Ele diz que, no inicio, Isabella Rossellini ficou ofendida com o projeto, no qual identificou certa dose de misoginia. Beverly Johnson, a primeira modelo negra a aparecer numa capa da Vogue, em 1974, ficou desconfiada, e esta sensação aumentou quando o diretor lhe mostrou suas primeiras imagens. "Eu disse algo como: você vai retocar esta foto, não vai?", lembra - e conta que o enfoque do diretor irritou algumas de suas colegas também. "Uma ficou ligando para a outra perguntando: dá para acreditar neste sujeito? Quem ele pensa que é? Mais tarde, porém, todas nos sentimos mais à vontade".

O aspecto despretensioso e desprovido de qualquer presunção de Greenfield-Sanders costuma inspirar confiança. Assim como suas modelos, ele tem consciência de que também está envelhecendo. "Em Sundance, tivemos de posar para as fotos para a imprensa. Olhei para o lado e percebi que ele também estava posando. Era como o quarto modelo do grupo, muito consciente da sua aprência", conta Beverly.

Sintonia. Greenfield-Sanders nos recebe na cozinha de sua casa e também estúdio, um antigo presbitério em Manhattan, onde foi rodada a maior parte do filme. Há várias obras de arte, com o maior destaque para as grandes telas figurativas de sua filha Isca. "Eu me sinto em sintonia com as pessoas. Se alguma coisa não funciona, posso perceber desde o momento em que elas entram no estúdio", diz.

Ele adquiriu esta capacidade muito cedo. Encarregado de filmar Orson Welles, Greenfield-Sanders, então com pouco mais de 20 anos, procurou encontrar um assunto para quebrar o gelo e perguntou ao astro qual seu filme preferido. "Não faço jogos deste tipo", foi a resposta ríspida que recebeu. "Este episódio o me ensinou que eu não estava lá para que ele ficasse à vontade. Se você dá uma chance, as pessoas contam as suas histórias", acrescentou.

Estas histórias podem ser interessantes. Jerry Hall cresceu no Texas, onde trabalhou, quando adolescente, em uma lanchonete. Sua mãe costurava suas roupas. "Nós recebíamos um catálogo da loja Frederick's de Hollywood. Todas aquelas roupas de pele de cobra e cetim eram o suprassumo do chique."

Há também histórias inquietantes. Lisa Taylor, por exemplo, sucumbiu à cocaína. "Eu era tão insegura que precisava daquilo, fazia com que eu me sentisse digna de ser fotografada".

Os comentários de Jade Hodson, ex-editora de moda, dão uma ideia da mudança dos tempos. Durante uma sessão de fotos com o fotógrafo Francesco Scavullo e a modelo Gia Carangi, lembra de ter visto "picadas" nos braços da modelo. "Talvez explorássemos estas garotas porque isto emprestava um determinado clima às fotos."

Em uma profissão notoriamente difícil, as pessoas ficam calejadas. Algumas conseguiram sobreviver e até mesmo evoluir, como Carol Alt. Aos 51 anos, ela escreve livros sobre nutrição, continua trabalhando como modelo e aparece em filmes - o mais recente é Para Roma, com Amor, de Woody Allen, no qual ela faz o papel da mulher de Alec Baldwin. "Chega um momento em que você é uma mercadoria preciosa porque não há mais ninguém como você", diz ela.

Carmen Dell'Orefice, que começou sua carreira nos anos 40, quando o termo "modelo" era um eufemismo para prostituta, raramente vai aos castings. Quando aparece no set, não tem a menor paciência. "Se eles dizem: 'Você é alta demais, você não é isto ou aquilo', simplesmente vou embora. Sempre há um outro emprego. Ou não". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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