Tudo invenção, tudo verdade

Premiado autor, Leonardo Moreira estreia Ficção, peça baseada apenas em histórias reais dos atores

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2012 | 03h12

Diante de uma obra baseada em fatos reais, é comum que nos perguntemos quanto de verdade existe por trás da ficção. Mas será que nos questionamos sobre o contrário? Quanto de imaginação existe no real? Até que ponto o que fomos, o que somos, não é senão uma invenção? Para conceber o espetáculo Ficção, o diretor e dramaturgo Leonardo Moreira tomou os intérpretes de sua cia. Hiato como matéria-prima. São seis solos em que os atores evidenciam aspectos das próprias vidas. Montam uma espécie de "museu-biográfico". Contam, cada um em cerca de 60 minutos, episódios que marcaram as suas trajetórias.

Com estreia prevista para hoje, no Sesc Pompeia, a peça será apresentada de forma fracionada: dois monólogos por sessão. Três dias, portanto, para que se veja a totalidade do conjunto. Não apenas pelo formato soa arriscada a aposta feita pelo autor e seu grupo. Também no conteúdo eles enveredam por trilha perigosa, que põe em xeque o sucesso conquistado.

Apesar da pouca idade, 29 anos, Leonardo Moreira mereceu, por dois anos consecutivos, o Prêmio Shell de melhor autor. Conquistou reconhecimento e, com ele, o contrapeso habitual: uma expectativa crescente a cada novo trabalho.

Em O Jardim, sua criação anterior, inventou uma estrutura na qual o público acompanhava três gerações de uma família em narrativas que corriam paralelas. Era um mecanismo engenhoso de dramaturgia. Moreira depurava recordações pessoais dos atores para trazê-las transfiguradas. Criava uma polifonia de vozes e entrecruzava tempos. Completava a arte com cenário e iluminação precisos de Marisa Bentivegna.

No novo título, porém, o caminho é inverso. Mantém-se a devoção à memória. Mas essa fé se torna de tal maneira absoluta que elimina os artifícios habituais do teatro. Ficção é, em essência, o antiespetáculo. Sem luz, sem trilha sonora, sem personagens. Os atores usam os próprios nomes, contam as próprias histórias. E é isso. Só isso. "O que é específico do teatro? Honestamente, para contar histórias existem meios mais eficientes. O que diferencia o teatro é que existe sempre uma tensão entre o lugar real e o lugar ficcional", considera o diretor. "É um ator real, em um lugar real, que se dirige a alguém em um tempo também real."

O apego ao documental não é novo. Para o neorrealista italiano Roberto Rossellini, tudo o que um cineasta precisaria fazer era posicionar sua câmera para captar a realidade. Reter o visível, render-se a uma verdade que não significa alguma coisa, apenas existe. Dos anos 1940 para cá, a presença da realidade nas artes só fez crescer. Invadiu o cinema. Espraiou-se para a literatura e as artes visuais.

No teatro, o expediente se assemelha. Pesquisas de campo, notícias de jornal, observações de episódios históricos e políticos embasam uma quantidade imensurável de montagens. Além da vida pública, elementos da esfera privada também se tornaram cada vez mais frequentes em cena.

Espetáculos recentes, como Festa de Separação e Luís Antônio-Gabriela, trabalhavam dados biográficos de seus criadores. Desvendavam seus processos de criação e evocavam para si a alcunha de "documentário cênico". Aparentemente, se poderia nomear Ficção de maneira similar. E foi essa também a falsa impressão que a cia. teve no início dos ensaios. "O esforço era trazer a realidade para a cena. Mas acabamos percebendo que é impossível fugir da ficção na vida, no real", conta Moreira. "É uma maneira de mostrar que, mais do que no teatro, a ficção está em todas as coisas, aqui e agora. Usamos estruturas ficcionais no cotidiano. Com certeza, o que estou dizendo agora é um texto que já falei antes."

Na nova obra da cia. Hiato, invenção e vida real estão de tal maneira embaralhadas que parece impossível dissociá-las. Onde está a verdade? E que verdade é essa, tão frágil, tão fugidia? Para falar de si, a atriz Luciana Paes busca apoio na figura de Frida Kahlo. Fazer referência à história da pintora que sofreu um acidente aos 18 anos parece um artifício para escapar da autobiografia. Resulta em um meio de escrutinar feridas antigas, de trazer o passado que não deixa de doer, mas sem incorrer na autocomiseração.

Único homem entre cinco atrizes, Tiago Amaral também buscou uma "máscara" para desvendar um trauma pessoal. Traveste-se de coelho, evocação de uma fantasia usada em uma festa escolar da infância. Decide trazer o próprio pai - um não ator - para contracenar com ele. Seu solo tece camadas e camadas sobre o passado. Durante anos, os dois estiveram rompidos. A peça a que o público assiste surge, portanto, como uma etapa real dessa reconciliação.

A presença de pessoas da família se estende para outras duas cenas: uma intérprete convoca a irmã. Outra traz a filha de 1 ano para fazer o percurso contrário e visitar a morte de sua mãe. Tudo verdade. Tudo invenção. "Só o fato de um filme ser baseado em fatos reais já nos faz vê-lo de uma outra maneira, como se aquilo tivesse um peso maior só por ser real. Hoje, é como se a gente desmerecesse a ficção. Quando deveria ser o contrário. É por meio da ficção que encontramos mecanismos para entender as nossas sensações", observa o diretor. Ele faz menção às teorias do filósofo eslavo Slavoj Zizek. No livro O Guia Pervertido do Cinema, Zizek discorre sobre como os filmes nos ajudam a nomear as emoções. "Eu só entendo qualquer emoção porque já a vi representada. É só assim que consigo reconhecer e ir alojando", acredita Moreira. "É um modo de viver algo sem ter necessariamente passado por aquilo. Nesse sentido, podemos pensar que quando se perde a ficção, está se perdendo também a realidade."

Mesmo com marcações rígidas - não existe uma fala ou um movimento que não estivesse previsto a priori - a peça carrega um ar de improviso. Como se cada palavra fosse dita pela primeira vez. Como se o espectador estivesse sempre em suspenso, sem saber como e onde está sendo "enganado". A peça já começou? Ou ainda não? Quem fala agora: o ator ou a persona que inventou para si?

Ficção não é, nesse sentido, uma obra bem acabada. Exibe tentativas que resultaram falhas, imperfeitas. Assume a precariedade como se ela fosse um bem ambicionado. Uma precariedade que os livra da segurança e das certezas. Um lugar incerto feito de descoberta e beleza.

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