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Transexualidade é tema de filme sensível na 36ª Mostra

Em sua estreia na direção, a alemã Sarah Judith Mettke serviu-se de experiências pessoais para construir personagens nada caricatos em 'Transpapa'

MARCIO CLAESEN - O Estado de S.Paulo,

23 Outubro 2012 | 03h11

Ainda um enigma para muitos - inclusive para gays e lésbicas - a transexualidade tem ganho nos últimos anos holofotes da mídia - seja em editoriais de moda ou revistas sensacionalistas. Mas é no cinema que as profundas camadas dessa questão têm sido melhor revolvidas e analisadas propiciando uma interpretação mais aguçada e longe de estereótipos.

Apresentar os transgêneros - pessoas cujos papéis sociais e identidade não se adequam aos gêneros físicos - como "seres humanos normais" é o objetivo de Sarah Judith Mettke, diretora de Transpapa, que participa da 36ª Mostra e tem sua primeira exibição nesta terça-feira, 23. “A maioria das pessoas pensa que transexuais levam uma vida excêntrica, vestem couro, usam boás coloridos e fazem sexo com animais ou coisas do tipo”, contou a cineasta ao Estado.

No longa escrito e dirigido por Sarah, a jovem Maren descobre que o pai, desaparecido há anos, se assumiu como mulher e atende pelo nome de Sophia. A garota, que lida com problemas típicos da adolescência - um jovem com quem ficou espalha para todo o colégio que ela é frígida - resolve deixar Berlim por uma semana, mente para a mãe e vai a Colônia reencontrar/conhecer o pai/nova mãe.

A convivência entre os dois não é simples, tampouco decorre-se em clima bélico. Aí está a maior qualidade do roteiro de Sarah. Ela arma situações que se encaminham para desfechos melodramáticos todo o tempo, mas desobriga-se deles com primazia de uma veterana, algo admirável para alguém que está em seu primeiro longa. “Teria sido mais fácil conseguir financiamento para o filme se eu o enchesse de clichês. Mas eu quis fazê-lo de maneira mais sofisticada, mais verdadeira”, afirma a diretora.

Além de Sophia, à certa altura do filme, a adolescente passa a conviver também com uma mulher negra e heterossexual e um idoso, ambos amigos de sua nova mãe. A convivência entre pessoas de raças, idades e orientações sexuais distintas poderia encerrar a ideia de uma família extravagante, algo do qual Transpapa se exime. “Na Alemanha, negras muitas vezes interpretam mulheres estupradas que vieram da África, mas nunca ‘mulheres normais’. Minha atriz era tão feliz sendo apenas uma mulher bonita que (a personagem) também poderia ser interpretada por uma mulher branca. Eu quero  que o público esqueça a cor ou o sexo e apenas veja pessoas em suas vidas normais.”

À naturalidade com que Sarah Judith Mettke trata o tema soma-se uma experiência pessoal: ela mesma é filha de uma mulher transexual (nasceu com físico masculino, mas tem identidade feminina). “Para todos os transgêneros é muito difícil voltar a participar da vida de seus filhos novamente. Mas eu não fiz só um filme sobre eles. Mas, sim, o quão duro é, em geral, aceitar o estilo de vida de outras escolhas. Para as crianças é difícil entender que os pais têm sua própria vida, além de serem pais. E para os pais é duro compreender que talvez nós não aceitemos do jeito que eles queriam que fosse.”

Aos 30 anos, Sarah dirigiu dois curtas-metragens e roteirizou outro antes de Transpapa, todos com uma atração pelo humor e pelo bizarro, segundo a diretora. O longa trilharia o mesmo caminho, mas durante o processo de escrevê-lo - que durou dois anos até conseguir dinheiro suficiente para filmá-lo - a história tornou-se mais dramática. “Sophia é um transgênero, mas ela poderia ser um pai ainda procurando por si mesmo em qualquer outro modo de vida e a filha precisa aceitar tal fato, mesmo que ela não queira.”

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