Tradutor de Faulkner fala da obra

Pode não ser um livro-estrela, como O Som e a Fúria, admite o tradutor Wladir Dupont, mas "certamente é um grande livro, porque é um Faulkner". Um Faulkner acusado de estar amolecendo no final da vida, mas, ainda assim, "preocupado com a ambigüidade da natureza humana" e com questões que marcaram a história do sul dos Estados Unidos como a complicada relação entre os brancos e os negros. Sobre o bom humor do romance, Dupont acha que ele decorre um tanto da própria temática da obra, a descoberta da virilidade: "Afinal de contas, não é nenhuma tristeza se fazer homem", acha. "O garoto está rodeado de adultos, todos malandros, mas cheios de sabedoria, em especial as prostitutas negras que encontra." Com bastante freqüência, o romance Os Invictos é associado a uma palavra: reminiscência. Haveria muito de William Faulkner naquele menino que conhece o universo masculino adulto depois de ser jogado no meio da malandragem, um menino que tem de fazer um esforço hercúleo para aprender as lições da vida - mesmo que uma delas seja a de ajudar os companheiros a tirar o carro de um atoleiro. Também estaria lá o Faulkner marcado pela ética e pelos códigos cavalheirescos de um universo patriarcal - logo no início do romance, há uma querela que exibe muito bem isso, em torno de uma arma, que todos sabem existir, mas sobre a qual não devem se pronunciar, num jogo complexo de proibições e liberdades. "Óbvia (a pistola) não apenas para nós mas para o próprio pai. Porque o pai sabia disso também. Ele tinha que saber disso; nosso negócio era muito pequeno, muito intrincado, eram muito estreitas as relações entre todos nós", escreve Faulkner. "Então o problema moral do pai era exatamente o mesmo do de John Powell, e ambos sabiam disso e encaravam o fato como devem e podem dois cavalheiros em suas relações recíprocas: se o pai algum dia fosse compelido a reconhecer que a arma estava ali ele teria que dizer a John para deixá-la em casa no dia seguinte ou que não viesse trabalhar." "No livro, os personagens mantêm características de outras obras de Faulkner, como a capacidade do ser humano de agüentar com enorme estoicismo o sofrimento", complementa Wladir Dupont, queixando-se de que não gosta muito de interpretar e falar do romance, preferindo deixar isso para cada um dos leitores dos autores que traduz - seu próximo trabalho será verter para o português o próximo romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, O Paraíso na Outra Esquina, que sai em março no mundo hispânico e em maio no Brasil. Para Dupont, apesar do tom mais leve, traduzir Os Invictos, como qualquer outra obra de Faulkner, "não deixa de ser uma pedreira": "É preciso ter um enorme respeito por essa linguagem que ele inventa." Uma invenção que foi comparada, no Brasil, à de Guimarães Rosa - porque também, num certo sentido, regional. Para respeitar essa língua própria do autor, numa tradução, Dupont afirma que procura conversar com moradores do sul dos Estados Unidos e, sempre, trabalhar com uma tradução para o espanhol do lado, a que recorre nos momentos mais difíceis - não para "colar" a solução de seu colega, mas para soluções para esses trechos críticos. Também procura ler muita poesia - o que, acha, ajuda a "dar enorme velocidade no manejo do idioma" - mesmo os maus poetas, aqueles que tropeçam no lugar-comum, na sua opinião, costumam dominar seus idiomas. "No final, sempre fica a sensação de que poderia ser melhor."

Agencia Estado,

24 Janeiro 2003 | 17h13

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