Tradição beijoqueira

Protagonista do primeiro beijo da TV brasileira, Vida Alves tinha a quem puxar

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2017 | 02h00

Desconfio que o pai da moça, ao contrário de tantos outros, talvez a maioria, quem sabe mesmo a unanimidade, não se abalaria nem um pouco ao vê-la, na televisão, de lábios colados aos de outro macho, num tempo em que isso não se usava.

 

Ao contrário, tenho bons motivos para acreditar que Heitor Alves sentiria orgulho ao ver a filha Vida carimbar, com seu batom, do qual vestígios ficariam para muito além dos lábios do galã Walter Forster, um marco na evolução dos costumes no Brasil, no que foi o primeiro beijo além-bochechas da nossa televisão, novidade tecnológica que, naquele remoto 1951, mal completara um ano de existência no País. “Sua vida lhe pertence”, haveria de dizer talvez Heitor - não tivesse ele morrido em 1935 -, poeta que, afeito a brincar com as palavras, teria assim trocado, não sem raro desprendimento paterno, um pronome pessoal no título da novela, Sua Vida me Pertence, na qual se deu o histórico selinho.

O que me faz pensar assim, nestes dias em que se foi a atriz Vida Alves, aos 88 anos (não sem antes estrear também o primeiro beijo gay televisado, em 1963), é a lembrança de que seu pai, levado pela tuberculose aos 37, foi ele mesmo um ser irrequieto, perseguidor compulsivo de audaciosas novidades.

Carioca de 1898, Heitor Alves era um engenheiro mais interessado em outro tipo de construção, a arte poética. Fez parte, no Rio, da turma da revista Festa, ao lado de Tasso da Silveira, Murilo Araújo e Andrade Muricy. Estreou em livro em 1921, com uma coletânea de versos ainda tão ligados ao Simbolismo que seu título deve ser transcrito aqui na ortografia original, Sons Rythmados. No seguinte, A Vida em Movimento, já estava convertido ao Modernismo.

 

Naquele mesmo ano, 1927, a tuberculose lhe impôs mudança para os ares terapêuticos de Itanhandu, cidadezinha de Minas, na Serra da Mantiqueira, que mal ascendera à condição de município. Ali, mais do que escrever, Heitor Alves se empenhou na criação de uma revista literária, a Electrica, que, editada entre maio de 1927 e maio de 1929, ficaria sendo a publicação mais longeva de quantas produziu o movimento modernista. 

Não chegou a ter, é verdade, a importância de outras surgidas em Minas Gerais por aquela época - A Revista, lançada em Belo Horizonte pela turma de Carlos Drummond de Andrade, e a Verde, de Rosário Fusco e mais uns moços de Cataguases. Ainda assim, Electrica se orgulhava de “colaboradores escolhidos” como Ribeiro Couto, Pedro Nava e o citado Drummond. Na imprensa belo-horizontina, este último falou de Heitor Alves como “um poeta que sente viver, que tem olhos para a infinita variedade das paisagens e ouvidos para a infinita melodia do mundo”.

Electrica estava longe de ser uma revista literária como as outras, a começar por sua feição gráfica, ao estampar poemas de Heitor Alves em forma de objetos - lâmpada, sino, taça, ampulheta, guarda-chuva, berrante, árvore de Natal. Além disso, embora trouxesse poesia, ensaio e ficção, acabava sendo uma espécie de almanaque de variedades a que não faltou, a certa altura, um concurso para escolher a Princesa e a Princesinha do Sul de Minas, certame consagrador, ao final, dos encantos de duas irmãs de Itanhandu.

 

Nem ao premiar nativas o irrequieto forasteiro ganhou de imediato a simpatia da conservadora população local, a cujos olhos transparecia como bizarria ambulante. No Ginásio Sul-Mineiro, que depois veio a chamar-se Escola Estadual Prof. Souza Nilo, quebrou pétreo paradigma ao misturar meninos e meninas na mesma sala. Foi além: liberou o cigarro em plena aula. Lá fora, fez caírem queixos ao construir uma casa em forma de estrela de quatro pontas - destruída após sua morte, contariam descendentes seus. O temor da tuberculose teria sido motivo para que desconhecidos tocassem fogo em tudo, livros e arquivos inclusive.

 

Pai pela primeira vez, Heitor encasquetou registrar a recém-nascida com a letra L - de Liberdade, Lealdade e Literatura, esclareceu. Como o tabelião não visse cabimento em dar a alguém um nome de letra, conformou-se o poeta com uma solução homófona e assim batizou Helle - filha que, aliás, lhe daria um neto cineasta, Lael Rodrigues, o falecido diretor de Bete Balanço.

 

Não foi aquele o único embate onomástico do inventivo pai, desejoso também de que o menino Heitor Homem se chamasse Homem, simplesmente. Mais sucesso teve ele ao batizar, na sequência, as filhas Vida e Poema e o caçula Ritmo. Fica hoje fácil entender por que num ramo mais recente da família pousa alguém de nome Tiê Gasparinetti Biral, a talentosa cantora e compositora Tiê, neta de Vida Alves.

A sociedade itanhanduense, àquela altura, já se habituara às maluquices de Heitor Alves, que, ao se casar com Amélia Guedes, enjeitou o então obrigatório traje escuro em favor de um nada nupcial terno branco. No final da cerimônia, ignorou a convenção do recatado selinho na testa, e, aos pés do altar, aplicou nos lábios da noiva as ventosas de um beijo voraz - gesto inspirador, quem sabe, daquele, menos fogoso, do qual infelizmente não ficou registro, que décadas depois a filha Vida, também ela pioneira, haveria de protagonizar ante as câmeras da TV Tupi. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.