Tomie Ohtake completa cem anos

A pintora, um dos principais nomes do abstracionismo informal, completa um século em plena atividade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de São Paulo

20 Novembro 2013 | 19h42

Tomie Ohtake completa nesta quinta-feira, 21, 100 anos. Mais de metade de seu tempo de vida foi dedicada à pintura, atividade que só começou depois de ver os filhos formados. Mãe dos conhecidos arquitetos Ruy e Ricardo Ohtake, ela passou igualmente pela experiência de organizar o espaço para depois descontruir a forma e se tornar um dos principais nomes do abstracionismo informal. Hoje, o instituto que leva seu nome inaugura uma grande retrospectiva com mais de 60 obras, desde as paisagens que marcaram o começo de sua carreira até as mais recentes pinturas, obras de grandes dimensões que expandem o território da tela e já não dependem de uma forma para existir, elegendo a cor como sinônimo de conteúdo.

O Museu de Arte do Rio (MAR) abriu na terça outra mostra em homenagem à artista, também com curadoria do crítico Paulo Herkenhoff. Nela estão algumas raras telas chamadas “pinturas cegas”, série realizada entre 1959 e 1962. Como o próprio nome indica, essa pequena série foi feita com os olhos vendados. Foi um rito de passagem da pintora, então ligada à construção geométrica, para o território informal. Tomie já pintava havia sete anos quando começou a série, tendo como primeiro incentivador o pintor japonês Keisuke Sugano, que, em 1952, estava no Brasil de passagem para uma exposição no MAM de São Paulo.

Nascida em Kyoto, Tomie desembarcou aqui em 1936. Veio visitar um irmão e, devido à guerra entre Japão e China, acabou ficando. As primeiras paisagens foram feitas na Mooca, onde morava. Nos anos 1960, com a ascensão do movimento concreto, Tomie conheceu artistas como Hércules Barsotti e Willys de Castro. Seu contato com a linguagem abstrata foi decisiva. A figuração ficou para trás e ela passou a produzir o que o que convencionalmente se chama de “geometria sensível”, ou geometria lírica – por incorporar a emoção do artista no processo construtivo. São dessa época suas melhores pinturas, como se pode ver na mostra retrospectiva do Instituto Tomie Ohtake.

A exposição chama-se Gesto e Razão Geométrica também porque a associação de Tomie com a geometria sensível praticada na América Latina não impediu que ela conservasse o vínculo com a cultura oriental, em particular com o gesto expressionista zen e, especificamente, com o círculo perfeito perseguido pela pintura zen budista – o enso, que simboliza o círculo, a iluminação espiritual, aparece de forma explícita nas telas dos últimos anos.

Há algumas pinturas na última sala da exposição em que Tomie exercita sua vocação assimétrica, deixando o círculo incompleto como forma de controlar o equilíbrio da composição e mostrar que ele faz parte de algo maior. Embora não seja religiosa, Tomie fez da pintura seu tabernáculo. Um santuário em que há lugar para o culto de Rothko e Patrick Heron, dois dos pintores ocidentais que marcaram a trajetória da artista homenageada em seu centenário com nada menos do que 15 mostras no País. Em Gesto e Razão Geométrica estão os arcos pintados nos anos 1970, as formas tubulares dos anos 1980, as texturas dos anos 1990 e, finalmente, os círculos imperfeitos que predominam nos trabalhos mais recentes. O mundo não perde por esperar pelo próximo gesto de Tomie.

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