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Todos outsiders

Lúcia Guimarães/Nova York

No megafone do YouTube, um jovem criado sem privações no Meio-Oeste americano fala para a câmera: "Caras, se vocês soubessem como a gente se diverte aqui - esta é a Disneylândia de verdade. Juntem-se a nós!". Muitos se juntaram mesmo, mas o protagonista do vídeo, Troy Kastigar, não pôde integrar o comitê de boas-vindas porque morreu na Somália, lutando com a Al-Qaeda.

Um outro jovem que também não cresceu privado de alimento, teto ou educação, acredita em violência mas não pensa em se imolar em nome de deus algum. Ele também fala com a câmera e desfia uma ladainha vagamente anticapitalista. O que chama atenção no discurso do jihadista ianque e o black bloc que quebra e incendeia é a descrença na democracia.

Com o avanço do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, o desmoronamento da Líbia, o caos semeado pelo Boko Haram na Nigéria e o avanço mercenário orquestrado por Vladimir Putin sobre a Ucrânia com apoio de extremistas russos, estamos assistindo a um espetáculo global de recusa da política como parte integral do processo democrático.

O Estado Islâmico, com seus assassinatos em massa, estupros, venda de mulheres e degolas de jornalistas, nos paralisa de horror. Mas de nada adianta Washington usar expressões como "câncer" e "vamos esmagar" para se referir ao novo inimigo. O Estado Islâmico, para começo de conversa, não nasceu há três meses nem é um vírus criado por um cientista louco, uma aberração de laboratório. Sua violência é hedionda, mas eles não controlariam um território habitado por mais de 4 milhões de pessoas se não tivessem propósito e método. A Al-Qaeda oferecia apenas martírio e vingança. O Estado Islâmico (até o abandono da sigla Isis é um belo golpe de branding) oferece um califado. Seu sucesso brota de um vácuo de democracia e governabilidade no Oriente Médio. Três anos depois da Primavera Árabe, um ano depois de um sanguinário general egípcio dar um presente ao extremismo islâmico, mostrando que não basta ganhar na urna para se integrar à política, a violência justificada por fé voltou a tomar o lugar da crença na democracia. E, para nos confundir mais, há uma noção de que este outro, mesmo o recrutado que passou suas tardes numa quadra de basquete em Minneapolis, está sob o feitiço de ódios milenares, portanto, intratáveis. A velha desculpa para o fascismo - Mussolini, ao menos, mantinha os trens no horário - não é de todo imprópria no caso do Estado Islâmico. Sua violência é previsível e regulada.

Assisti ao vídeo do finado Kastigar, o alegre jihadista de Minnesota, pouco antes de sentar para ouvir o primeiro debate presidencial brasileiro. Assim como o então desconhecido senador do Illinois eletrizou a Convenção do Partido Democrata, em 2004, prometendo acabar com a polarização partidária no país (sabemos como este filme está chegando ao fim), a candidata Marina Silva ofereceu uma fartura de exortações semelhantes às do ex-senador Obama: A polarização PT - PMDB deu o que tinha que dar, vou governar com os melhores, não com os ideólogos. Refrescante.

Se eu fosse votar para presidente pela primeira vez não haveria nada mais atraente do que me prometer um cenário de governabilidade transparente, sem fisiologismo. A ideia de varrer as cabeleiras masculinas tingidas de acaju da nossa tela é irresistível.

Mas há uma diferença entre o idealismo do ex-senador que se tornou o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e o da ex-senadora que espera conseguir o mesmo feito no Brasil. Obama queria, e não conseguiu, destravar o sectarismo ideológico operando dentro do sistema democrático que completa 225 anos em 2014. Quando enfrenta uma tragédia como a morte de mais um jovem negro nas mãos de um policial branco, Obama não propõe uma emenda constitucional nem um plebiscito.

O programa de governo da ex-senadora e candidata pelo PSB acendeu meu alarme 8243, assim batizado por causa do decreto baixado pela presidente Dilma. O 8243 é um atalho eleitoral para aplacar tanto o descontentamento legítimo quanto o niilismo do quebra-quebra com uma lei que, diz quem entende do assunto melhor do que eu, é basicamente inconstitucional. Pois no programa de Marina Silva encontramos o mesmo assembleísmo que considera a nossa democracia constitucional insuficiente. Ela promete mais plebiscitos e consultas populares.

A juventude que cresceu online está pronta para alternativas ao bolor do clientelismo partidário. Mas, assim como o slogan dos jovens que fundaram o Google - "Não seja malvado" - vale menos do que um vídeo Betamax hoje em dia, vamos devagar com o andor da antipolítica.

Não custa lembrar uma frase que Winston Churchill tornou famosa em 1947, apesar de seu verdadeiro autor ser um aforista anônimo: "A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas a outras".