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Te conheço

Eu tenho um problema sério que acomete a boa parte da população mundial. É um fenômeno ainda sem nome determinado pela ciência, mas que ouso batizar de “desmemoriamento facial alheio”. No que consiste esse mal? É quando você olha para uma pessoa e percebe, pela reação dela ao te ver, que por algum motivo, você deveria saber quem ela é. Pode ser um amigo de um amigo, uma mulher que você já beijou em algum passado distante ou recente, um amigo do seu pai, um aparentado de um conhecido, uma pessoa a qual você já foi apresentado diversas vezes, mas nunca trocou mais de quatro “e aí, como tão as coisas?”, enfim, é um sofrimento constante e que a humanidade insiste em não buscar uma cura.

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Fábio Porchat

14 Fevereiro 2016 | 02h00

Conversando com algumas pessoas (que, por acaso, reconheci de imediato, mas mais por serem minha mãe, minha namorada e minha avó do que por mérito da minha memória), notei que é uma questão que assola boa parte dos seres humanos. Sem solução possível no horizonte, desenvolvi técnicas para a sobrevivência no círculo social que gostaria de passar adiante para o caso de você também sofrer disso, assim não precisa passar por tantas humilhações diárias. A tendência é você se fechar, preferir ficar em casa assistindo Netflix a correr o risco de encontrar alguém. Mas o isolamento só fará piorar. Você precisa ver gente para, quem sabe um dia, lembrar de toda essa gente.

Primeira dica: nunca olhe diretamente nos olhos de ninguém. Tenha o olhar sempre perdido. Se você cruzar os olhos com alguém, terá caído na armadilha e a porta do inferno será aberta. Por melhor que tente disfarçar, a pessoa sabe que você não sabe. Dica dois: nunca diga “prazer” ao ser apresentado a alguém. Essa tentativa de simpatia pode ser destruída com um simples “a gente já se conhece”. Sempre cumprimente com algum comentário dúbio, que sirva para quem você nunca viu na vida ou para quem você já trocou palavras. Um animado “e aí, tudo bem?” sempre funciona.

Terceira dica: quando um maldito perguntar na frente da pessoa, “vocês se conhecem?” nunca responda de bate-pronto, deixe a pessoa responder, se por acaso rolar um silêncio constrangedor, fale que sim. É melhor errar pelo excesso do que pela escassez. Se a pessoa disser que não conhece, ria e fale que acha que já foram apresentados sim, passe a bola para ela e deixe que ela se sinta mal. Quarta dica: na dúvida, cumprimente. De longe, de perto, do outro lado da calçada, no carro de trás, numa ligação, no hall do seu prédio, não importa. Sorria e cumprimente. Pode mandar um neutro “como é que você tá?” que funciona bem para possíveis conhecidos e potenciais desconhecidos. É preferível sair cumprimentando todo mundo do que não cumprimentar ninguém.

Dica cinco. Se por acaso a pessoa falar “lembra de mim?” sua resposta imediata tem que ser “nossa, como você tá diferente”. De resto, lembre-se do clássico ditado: não faça com os outros o que você não quer que façam com você. Logo, ao encontrar com alguém, sempre, sempre (sempre) se apresente, mesmo que esse alguém seja o seu filho.

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