'Tanta Gente, Mariana'

Suspirei quando li esse trecho do livro de Maria Judite de Carvalho e discordei do que o homem dizia à filha que chorava

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2018 | 03h00

Lembro-me que quando vim morar em Portugal, dentre as muitas promessas que me fiz, me prometi que conheceria melhor a literatura portuguesa, indo além dos clássicos que li para o vestibular e dos livros mais populares que chegam às livrarias brasileiras. Foi uma das poucas promessas que cumpri na vida. Graças a essa decisão, tive a sorte de me apaixonar por Maria Judite de Carvalho, escritora lisboeta que morreu quanto eu tinha 10 anos, mas que eu só soube que existia aos meus 26.

Tanta Gente, Mariana foi uma das histórias mais tristes e mais sensíveis que já li. Uma mulher que sabe que vai morrer em poucos meses e começa a tentar entender como chegou até ali. Mas me lembro de ter ficado genuinamente incomodada com a parte do livro em que entendemos o título da obra. O momento em que o pai diz à filha: “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode”. 

Suspirei quando li o trecho e discordei profundamente do que o homem estava dizendo à filha que chorava na cama. Tinha certeza de que só acaba sozinho quem tem muito azar ou quem erra muito ao longo do caminho. Depois daquilo nunca parei de pensar nessa frase e acho que agora, aos poucos, começo lentamente a entender a passagem do livro.

Essa história de me aproximar dos 30 anos me trouxe, além da maldita azia e de uma dificuldade maior para perder peso, a noção de que, independentemente do quão cercados de amor estejamos e de quantas pessoas se importem verdadeiramente conosco, a verdade é que a vida, no fundo, é uma jornada muito solitária pelo fato de sermos os únicos responsáveis pelas nossas decisões. Pelas boas e pelas ruins. 

Por melhores que sejam nossos pais, irmãos, cônjuges, familiares e amigos, a consciência de que somos indivíduos – exatamente no sentido da palavra “individual” – é uma angústia que não nos abandona nunca. Podemos pertencer aos melhores grupos, ter o maior dos amparos, mas sabemos que somos sempre indivíduos.

Como meu chefe me disse uma vez, citando o cineasta Orson Welles: “Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Apenas através dos nossos amores e das nossas amizades é que podemos criar a ilusão momentânea de que não estamos sós”. E não é verdade?

E cada dúvida – o pedido no cardápio, atravessar ou não atravessar com o farol aberto, escrever ou não escrever certas palavras, fazer ou não um testamento, pedir ou não pedir demissão, o acerto do relacionamento, da cor do cabelo, da peça de roupa, as pequenas decisões do dia a dia e as grandes decisões da vida toda – faz com que nos lembremos, sutilmente, que estamos, de fato, sozinhos, mesmo que estejamos maravilhosamente acompanhados.

Hoje, acho que começo a entender o que o pai da Mariana queria dizer para aquela filha tão triste. O mundo tem tanta gente (mesmo que gente boa, amada e presente), tanta gente, Mariana, e a verdade é que nós estamos sempre sozinhos (na nossa individualidade, na nossa liberdade e nas nossas decisões) e que, no fundo, realmente ninguém pode fazer nada por nós. Pelo menos não as coisas que realmente importam. Essas são sempre nossas.

É uma verdade muito simples e muito incômoda, que, por vezes, passamos uma vida inteira a evitar – sobretudo essa minha geração mimada –, culpando os outros, o cosmo, Deus e o Diabo pelos nossos escorregões, quando, sejamos honestos, a culpa quase sempre é toda nossa e de mais ninguém.

Obrigada pela clareza, Maria Judite de Carvalho. Foi o pai da Mariana quem disse, mas foi você quem escreveu. E, cá entre nós, se você não tivesse escrito eu provavelmente ainda estaria aqui acreditando que todos os meus erros não são nada além de um belo encadeado de azares, sabotagens e maldições. Melhor assim.

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