Superman, o herói que definiu a perfeição, ganha 'biografia não autorizada'

Superman, o herói que definiu a perfeição, ganha 'biografia não autorizada'

Livro busca destrinchar a perfeição do personagem criado há 78 anos

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2016 | 07h00

Glen Weldon, escritor e crítico de quadrinhos, dá razão a Lex Luthor, o arquirrival do Superman. Humano, como qualquer um, eu, Glen e você, e mais inteligente que provavelmente nós três juntos, Lex nutre um ódio quase irracional pelo Homem de Aço. Ele detesta o herói que é capaz de tudo: voar, soltar raios pelos olhos, ser mais rápido do que uma bala e, ainda, ser dono de uma integridade quase inabalável. Insuportavelmente perfeito. 

Desde a sua criação, pelos jovens Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938, Superman é praticamente o símbolo da perfeição. A letra “s” reluzindo no peito estufado, os quadradinhos sempre impecáveis da barriga, a capa esvoaçante e até mesmo o cacho – que despretensiosamente se solta do topete nos momentos de mais ação –, tudo indica como o personagem que debutou naquela Action Comics esmigalhando um carro verde em uma pedra é imbatível. 

Enviado de Krypton para a Terra quando o planeta dele estava prestes a explodir, adotado por uma família caipira do Kansas, nos Estados Unidos, o Superman é puro, como aponta o livro Superman: Uma Biografia Não Autorizada (da editora Leya), de Weldon, alguém especializado no super mais super dentre os supers. O trabalho lançado agora no Brasil busca destrinchar, justamente, como a perfeição de um herói tão inatingível – e, por isso mesmo, às vezes, chato – foi capaz de permanecer no imaginário e uma figura tão importante da cultura pop 78 anos depois do seu lançamento. 

O bom humor no texto de Weldon já se escancara na brincadeira com o título do livro. Não se trata exatamente de uma biografia não autorizada, obviamente, mas, sim, de um ensaio sobre a evolução do Superman através das quase oito décadas de existência – e como ele e a humanidade ao seu redor se influenciaram e se transformaram. O autor esmiúça a construção desse personagem que deu início ao que hoje pode ser considerada a maior febre da cultura pop mundial, que são os heróis e suas cuecas por cima das calças coladas ao corpo, atualmente nos cinemas e na TV. “Superman sobreviverá de algum jeito a outros 75 anos”, escreve o autor no livro. “Porque, diferentemente de Homem-Aranha ou Batman, não é um herói com quem nos identificamos; é o herói em que acreditamos.” 

Por mais perfeito que fosse, o Superman se moldou à sociedade de sua época 

Há quem arrisque dizer que super-heróis são a nossa mitologia contemporânea. São como as histórias de Hércules e os deuses para aqueles que viveram na Grécia Antiga. Não de forma religiosa, é claro – ninguém deve ter um altar com a imagem do Batman por aí –, mas no sentido mais amplo do alcance desses personagens, sua presença na cultura de massas, como ícones pop. Assim como cada uma das entidades mitológicas, os heróis que nasceram nos quadrinhos, mas extrapolaram as barreiras das páginas de papel há tempos, dividem-se através daquilo que representam. O já citado Batman é um homem comum, com muito dinheiro para torrar em bugigangas, um cérebro invejável e dono do corpo humano treinado ao extremo, simboliza o bem e o mal dentro de uma mesma pessoa, a luz na beirada da escuridão. É como os semideuses que enchiam as histórias mitológicas de nuances. 

Já Superman, não. Não há imperfeições no seu conceito. No livro Superman: Uma Biografia Não Autorizada, escrito pelo especialista em histórias em quadrinhos Glen Weldon, lançado no Brasil pela editora Leya, o segredo do personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, publicado pela primeira vez na revista em quadrinhos Action Comics de 1938, foi adaptar sua perfeição ao seu tempo. 

Ao longo de 78 anos em histórias em quadrinhos e, depois, televisão, cinema e até videogames, o personagem viu uma guerra mundial começar e se encerrar, conviveu com os temores da tensão entre Estados Unidos e União Soviética, queda do muro de Berlim, crises bélicas no Oriente. E se transformou, mesmo que mais no visual do que em outros aspectos, para os novos tempos. “O Superman muda quando a nossa cultura muda”, escreve Weldon. “A única coisa que permaneceu intocada, inviolada desde que o n.º 1 da Action Comics chegou às bancas em abril de 1938, é a sua motivação. Essa motivação é a mais simples de todas e, ao mesmo tempo, a mais difícil de destrinchar. Ele é um herói.” 

Não é por acaso que havia uma inocência na pureza de Superman naquele período de 1930, ou a distância, como um pai, em 1940 e 1950, e a lisergia confusa que tomou conta dos personagens (e de jovens da geração hippie) em 1960 e 1970. 

Entre as diferentes versões de Superman que surgiram ao longo desses anos, duas características do personagem nunca puderam ser colocadas de lado. O herói, mais do que qualquer um, coloca as necessidades dos outros acima das dele e nada o faz desistir. “São os elementos que compõem uma história genuína do Superman”, escreve o autor. “Se um ou dois elementos fundamentais estiverem ausentes, nossa mente se rebela. Simplesmente não é o Superman”, pontua o texto – seria como Hércules sem sua força extrema ou Aquiles e sua necessidade de guerrear. 

 

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