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ENTREVISTA: Emicida

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São Paulo Fashion Week

'SPFW pode estar próxima da favela', afirma Emicida

LAB, marca criada pelo rapper e pelo irmão, Evandro Fióti, estreia na segunda-feira, 24, na semana de moda

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Anna Rombino

21 Outubro 2016 | 06h00

Uma estreia um tanto surpreendente promete causar na próxima edição da São Paulo Fashion Week, que começa no domingo, 23, e vai até sexta-feira, 28. Isso porque a grife em questão é comandada por Emicida, um dos mais famosos rappers do País. Ao lado do irmão Evandro Fióti e do estilista João Pimenta, o artista transformou sua marca já existente, a Laboratório Fantasma, na LAB, que mostrará suas peças inspiradas no hip hop já segunda-feira, 24. A trilha sonora, composta especialmente para o desfile, é um rap que foi gravado por Emicida na tarde de ontem.

Ele começou fazendo rimas em batalhas no bairro da Santa Cruz e, em 2009, gravou sua primeira mixtape. Depois disso, vieram os shows. Na mesma época, criou a própria gravadora e a marca de roupas. “Montávamos uma banquinha para vender camisetas e bonés estampados com frases de músicas”, conta ele. “Era um complemento da renda para que pudéssemos continuar rimando.” Aos 30 anos e com uma carreira de sucesso na música nacional, Emicida entra agora para a elite fashion brasileira, com a ideia de fazer uma moda democrática e inclusiva (com camisetas a partir de R$ 69,90 e moletons que custam R$ 209,90). As peças estarão à venda no site da marca logo depois do desfile. Em entrevista, ele fala sobre suas inspirações, seu processo criativo e diz que considera a moda uma forma de expressão tão autêntica quanto a música.

O que representa para um rapper fazer parte da SPFW?

Quando o Emicida e o Fióti saem de onde saíram, constroem uma história como a da Laboratório e conseguem ter relevância ao ponto de circular ao lado de outras marcas no maior evento de moda da América Latina, estamos dizendo para as pessoas que têm a nossa origem que tudo é possível. Gostaria muito de aproximar realidades diferentes: a São Paulo Fashion Week pode ser mais próxima da favela, e as favelas mais próximas da São Paulo Fashion Week. O Brasil é um caldeirão de criatividade e a gente perde muito por não ter a vazão necessária. Quando abrirmos essa porta de possibilidades, traremos novos olhares e reflexões, fazendo o potencial criativo do Brasil se expandir de uma maneira nova.

Seu público aprovou a sua versão estilista?

As pessoas que estão com a gente estão empolgadas e torcendo bastante para que tudo dê certo. Fizemos uma pesquisa no começo do ano para ver qual era nossa identidade depois de tanto tempo e concluímos que a essência ‘é nóis’ é o que dá essa sensação de pertencimento. É uma conquista muito grande para uma marca quando o consumidor se sente representado, e temos uma relação muito próxima com a molecada que nos acompanha.

Com a entrada no evento, o que muda e o que se mantém no estilo da marca?

Agora, estamos mais exigentes e ousados no que diz respeito à modelagem. Ficamos muito tempo em um lugar comum, que era desenvolver um modelo de camiseta e estampá-lo, sem estimular a criatividade. Tivemos erros e acertos, mas foi uma grande escola para hoje nos sentirmos confiantes para sentar com o João Pimenta e passar nossas ideais.

Como funciona o processo criativo em parceria com o estilista João Pimenta?

Ele paga os pecados dele! Chegamos com um bolo de referências e falamos o que queremos. Sempre funciona dessa maneira. Das outras vezes, eu até rabisquei mais, mas, desta vez, fiquei preocupado com o conceito e a história do que íamos contar. Realmente, João gastou mais o lápis dele do que eu, que fiquei no ombro dando ideias.

E quais foram essas referências?

Das últimas viagens que fiz para a África, eu trouxe muitos tecidos, mas não queria usá-los de maneira que as pessoas achassem que só trabalhamos com estampas étnicas. Sou uma mistura de referências muito bagunçada. Sou apaixonado pela cultura do Japão, daí surgiu a ideia de usar o Yasuke, um samurai negro. Mesclamos algumas coisas da cultura oriental com a estamparia africana e, de certa forma, elas têm suas semelhanças nas histórias que contam. O Brasil é o lugar perfeito para mostrar essa fusão, porque aqui é um caldeirão de culturas.

Quais elementos do rap estão presentes na coleção?

Primeiramente, ‘nóis’! O rap está bem representado no estilo, não vamos fugir do fato de sermos um elemento da cultura urbana. Também gostamos de reler elementos antigos. Tem uma tradição do hip-hop que somos apaixonados que é a cultura do sampler, que é pegar um fragmento de uma música e construir outra a partir dela. Quando criamos as roupas, buscamos histórias do passado que conversem com os dias de hoje.

Qual a diferença entre desenhar uma roupa e escrever uma música?

Eu não vejo diferença. São duas frentes que as pessoas usam para contar suas histórias. O visual sempre foi fundamental no hip-hop. Nos anos 1970, eles usavam Puma Suede, que tinha que estar limpinho, e correntinhas de ouro. Se você pegar a história da moda, em 1845, Charles Frederick, que é considerado o pai da alta-costura, já conseguia ler a característica política dela e enxergar que aquilo era mais do que uma roupa e levava informações além do visual em si. A música conta histórias, assim como a moda – a gente só está misturando duas plataformas e mostrando que esses dois universos são muito próximos.

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