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Spa ideológico

Uma bactéria violenta, possivelmente salmonela, abateu, certa vez, esta colunista em Portugal. Ainda em recuperação, fui levada a uma festa numa casa abastada e bem recebida pelo anfitrião que não conhecia. Tenho uma lembrança vaga da noite, zonza que estava da desidratação recente. Sei que não estava vestida tão elegantemente quanto os outros convidados. Era difícil acompanhar as rodas de conversa e não me esforcei como devia, temo ter soado inapropriadamente informal. Era evidente que não devia ter pisado fora do hotel tão cedo.

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Lúcia Guimarães

21 Março 2016 | 03h00

Os portugueses que conheci são invariavelmente educados. Não hei de culpar os convidados da festa se me consideraram meio primitiva. Coma uma açorda de camarão estragado e não há educação em colégio de freiras que lhe garanta a compostura nos dias seguintes, digo eu, tentando me absolver.

Contemplando, anos depois, meu passo falso em Portugal, eu me pergunto se, mais do que brasileira, fui identificada como carioca. A informalidade certamente não era fruto da carioquice que o prefeito Eduardo Paes invocou para tentar justificar sua conversa subserviente e grosseira capturada no grampo telefônico de Lula.

Talvez possa, sim, ser acusada de exagerar na nova-iorquice. Há algo de confrontação e desassombro no nova-iorquino que pode exasperar forasteiros. A franqueza aqui é comumente interpretada como rispidez.

Pensei no descompasso entre a hospitalidade de uma cultura e os cacoetes estrangeiros ao observar a cobertura internacional sobre o derretimento do Brasil. Vivendo nos Estados Unidos, me incomodava, nos telejornais, a inevitável figura do correspondente de colete safári cáqui, figurino adotado tão logo pisava fora de um país, que, a seu ver, merecia terno e gravata. Estou acostumada a ler “Sao Paolo” no lugar da grafia correta do nome da cidade cuja economia é duas vezes maior do que a de Portugal.

Mas o colete safári é um resquício cultural colonialista que foi saindo de cena. E, frequentemente, o figurino não era sinônimo de desinformação ou falta de afinco investigativo. Nefasto mesmo é o santarrão que enxerga num país estrangeiro como o Brasil uma oportunidade terapêutica para sua confusão existencial. O Dr. Livingstone não conseguirá dominar a língua portuguesa se sua vida depender disso, mas dispensa julgamentos como se o Brasil fosse seu spa ideológico. O gringo que, entre tropeços da mistura cômica de femininos com masculinos, não hesita em se servir de uma crise para confirmar uma visão de tamanho único do mundo.

Como tanto que se perde em tradução, aparece na mídia de várias línguas a versão de que o partido em seu décimo quarto ano de hospedagem no Planalto é vítima da imprensa e não de suas ações.

O público brasileiro, que votou livremente em seus representantes, enfrentaria uma lavagem cerebral diária. Esta versão é o equivalente editorial do colete safári – trai a postura de superioridade cultural e a expectativa de condições inóspitas. Além de servir à demagogia de um partido, esta tese se sustenta menos ainda quando observamos a radical transformação na maneira como os brasileiros se informam. O consumo per capita de notícia via Facebook do Brasil é o maior do mundo. Não estarei chocando leitor algum se lembrar o quanto as redações brasileiras foram enxugadas, o quanto o jornalismo briga por espaço.

A sugestão de hordas de deserdados intelectuais marchando hipnotizados pela mídia é tão fantasiosa quanto a possibilidade de Barack Obama dar posse na Casa Branca a um ministro sob gritos cuidadosamente orquestrados de “O povo não é bobo, abaixo a Fox News!” Mas quem haveria de imaginar tal distorção da realidade?

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