Coletivo 82
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Som a Pino: 'Amar sem temer'

A música brasileira passa por um momento com um discurso muito forte

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2017 | 02h00

O filho sai do quarto no almoço de domingo, ele tem 20 anos, veste uma camiseta rosa e bem grande que comprou e não sabe se gostou. Pergunta para a família: “O que acham da minha camiseta nova? Estou bonito?”, todos olham, o pai responde: “Parece uma bicha”. O filho para, olha pro pai e responde: “Então está bom, né?”. O pai insiste: “Eu disse que parece uma bicha”. O filho responde de novo: “Então não tem problema, o que é parecer uma bicha? Não vejo nada de ruim na frase”. O pai: “Você quer me falar alguma coisa?” e o filho encerra o assunto: “Não. Vamos almoçar todos felizes”. O almoço segue e ninguém toca mais no assunto. Todos fingem que nada aconteceu, mas algo fica no ar. 

Depois do almoço, o pai vai até o quarto do filho. 

PAI: Quem você está pegando?

FILHO: Desde que me separei da minha namorada só peguei homens (pai começa a chorar, filho permanece em pé olhando).

PAI: Mas ninguém na nossa família é assim. 

FILHO: Não dá pra saber pai, olha como você reage! Talvez tenha mais alguém e que nunca teve coragem de dizer. 

PAI: O que meus amigos vão achar?

FILHO: O que eles têm a ver com isso?

PAI: Eu sou seu pai e preciso te proteger, você vai sofrer muito, meu filho! 

FILHO: Pai, eu não estou sofrendo. Quem está sofrendo é você. 

PAI: Mas você vai ter que fazer uma força para parar.

FILHO: Não vou pai. Eu estou feliz. 

Essa cena aconteceu - e muitas vezes.

A música brasileira passa por um momento com um discurso muito forte. Existe toda uma cena cantando alto sobre amar sem temer, sobre ser o que se é. Vejo muitas vezes a confusão de que artigo usar, ele ou ela, até inventaram uma nova forma de escrever, “elx”. E isso fortalece escolhas, se temos tantas referências do que ser, podemos ser mais coisas e de uma maneira mais livre. 

Homofobia mata uma pessoa a cada 25 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia, a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil. Cantar a liberdade de amar é importante demais. Liberdade é uma palavra plural, atravessa discursos, estéticas e gerações. Cada geração busca defender a liberdade à sua maneira e toda maneira de amor vale a pena. 

Escuto muito, “mas essa turma faz sucesso só pelo discurso” e não consigo separar discurso de música. É importante demais que isso seja cantado e gritado. E, sim, tenho certeza de que todos os artistas da geração estão preocupados em não se tornarem apenas (como se isso fosse apenas) porta-vozes na luta (que é de todos nós). Avante!

Bixa. A foto usada na ilustração da coluna é a do próximo disco da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, que sai no mês que vem, no dia 1.º de setembro.

 

O primeiro disco leva o nome de Mulher e agora está chegando o Bixa, com produção de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. Já podemos começar a contagem regressiva para o lançamento. Vem Bixa!

MÚSICA DA SEMANA

Tua Cantiga

Ahhhhhhh... Chico Buarque lançou na sexta-feira a primeira música do novo disco Caravanas, que será lançado este mês (ai meu coração). A linda canção tem letra de Chico e melodia de Cristóvão Bastos. “Quando tua garganta apertar”, “quando teu coração suplicar”. Chico há de voltar para nos encantar. E cá ele está. Que venham as Caravanas!

 

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Chico Buarque

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