Sociedade cardume

Segurança infantil não era prioridade no passado. Jogávamos bola na rua. Só o goleiro usava proteção

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 02h00

Morei em casas diante do mar até os 14 anos, quando me mudaram para prédios diante de prédios. E passei férias numa fazenda que tinha um lago barrento, uma piscina tomada por lodo e sapos e um rio limpo de forte correnteza. 

Aprender a nadar era fundamental. Nossos pais nos ensinavam, sem qualquer didática ou manual. Meu pai colocava a mão nas minhas costas e dizia: “Boia”. Depois, me mandava mexer os braços, depois as pernas, depois me levava nas costas até o fundo do mar e dizia: “Agora, nade até a praia”. 

Nunca na minha vida tive uma boia nos braços ou coletes infláveis coloridos com reproduções de personagens da Disney.

Hoje, as crianças do Vale Encantado do Rio Pinheiros fazem natação. Que se chama Adaptação ao Meio Líquido, detalhe a ser considerado, pois é mais barata que natação e focada num projeto lúdico de ensinar bebês a sobreviverem numa piscina. 

Os pais do Vale Encantado têm ou alugam bens com piscinas e conhecem muito bem as estatísticas: afogamentos são a segunda causa de morte e a oitava de hospitalização por acidente entre crianças de um a 14 anos. 

Segurança infantil não era prioridade no passado. Jogávamos bola na rua. Só o goleiro usava proteção. Ao descer uma ladeira num carrinho de rolimã sem freio, que pais e tios construíam, ou ruas num skate que também construíamos com placas de compensado e rodinhas parafusadas, não se usava capacete, protetores nos cotovelos e joelhos. 

O que não deve ser vangloriado nem imitado. Quantos amigos não se arrebentaram em quedas e não sofreram danos irreversíveis? 

Preservar a vida não era uma obsessão social. Prédios não tinham redes de proteção nas janelas. Também nada recomendável. Mas não estou aqui para teorizar se uma geração mais cuidadosa é mais infeliz do que uma mais imprudente. Apenas para constatar a diferença de apego à vida e à imortalidade.

Meu pai metia os cinco filhos no banco de trás de um Opala, sem travas nas portas para bebês, dirigia como um alucinado por 650 km, da nossa casa de praia alugada para a casa de fazenda do meu avô, e ninguém usava cinto, muito menos bebê-conforto.

Lá, aprendíamos a cavalgar com 5 anos em pangarés que dormiam ao relento com cobras e morcegos; só meu avô tinha um de raça. Nós mesmo os encilhávamos, com equipamentos laceados, improvisados, e a ajuda de um primo mais velho, sob o olhar atento do único vaqueiro, oriundo do bando de Lampião, rezava a lenda.

Se um alimento caía no chão, nos devolviam e diziam: “O que não mata, engorda”. Quase todos os primos tinham vermes. Todos tinham cicatrizes nos supercílios e joelhos: uma das brincadeiras era ensaboar o chão com sabão em pó e escorregar de joelhos.

Beliches não tinham protetores laterais. Por vezes, alguém acordava no chão. Passava-se mertiolate, dividindo a pazinha da tampa, sem conhecermos a data de validade, incomum nos rótulos dos remédios e alimentos da época. Se ardia, assopravam.

O desapego era maior. Casas não tinham chaves, padeiros deixavam pães e leite com o jornal, antes do amanhecer, nas portas ou janelas (sem grades). Ninguém tinha arma, e ginástica era uma coisa chata, com exercícios herdados de academias militares: polichinelos e flexões.

Não existia comida light, diet, café descafeinado, pão sem glúten, leite sem lactose. Açúcar era guardado num balde. Todo dia, pão com manteiga, bife. Às vezes, com ovo; presença obrigatória no café da manhã; cereais são uma imposição ianque recente. 

Tios e avós morriam cedo, estatelados por enfarte (não tinha sinvastatina), num acidente de carro (não tinha airbag). Muitas tias e avós morriam de câncer no útero, ovários ou mamas (não tinha medicina preventiva). O normal era que tivessem de cinco a sete filhos. Quatro, a média. Dois, pouco. E muitas perderam um filho na gravidez.

Contei tudo isso a um vizinho argentino, enquanto olhávamos atentos nossos filhos se arriscarem sem boias numa brincadeira de moleque, a um fio de sair do controle, na piscina do prédio. 

Contei que nenhum dos meus 40 primos morreu ou teve acidente com sequelas, antes de completarmos 18 anos. E contei que um primo rolara uma cachoeira uma vez.

Dito isso, quem passou? Meu primo. Biólogo, também vizinho, que me corrigiu: “Rolei duas vezes”. Professor do ensino médio, falamos de escolas com câmeras, seguranças, catracas, da vigilância dos pais, que criam grupos em redes sociais. 

Lembramos que, na adolescência, quando viajávamos de carona, navios de carga ou busão pelo Brasil profundo, ficávamos semanas sem dar notícia aos pais. Nos desconectávamos completamente. Eventualmente, mandávamos um postal. Ligar? Caríssimo. 

Hoje, estamos atentos nos parques ou numa rede social de vigilância e proteção, que indica até a localização de cada um. 

Foi ele quem fez a comparação: viramos uma sociedade cardume, superprotetora, que nada como um único indivíduo, para se proteger de predadores que se vierem verão a sombra de algo maior. Como peixes pelágicos. Ou plânctons, que nem nadam, movem-se pela corrente.

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Virgulino Ferreira da Silva

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