Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo tem sua trajetória examinada em livro - sem evitar as contradições

CAMILA SALLES GONÇALVES

CAMILA SALLES GONÇALVES É DOUTORA EM FILOSOFIA, PSICANALISTA, MEMBRO DO DEPARTAMENTO DE PSICANÁLISE DO INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE, COORDENADORA DO CONSELHO EDITORIAL DE RESENHAS DA REVISTA PERCURSO, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

Em psicanálise, o que há e se mantém além de Freud? Sabe-se que ele fundou uma prática clínica, um método e a teoria, cuja pedra de toque é o conceito de inconsciente. Com isso nasceu um ofício, ou profissão, a de psicanalista. Desde o primeiro grupo de profissionais reunido em torno do fundador, têm surgido associações e instituições psicanalíticas. Algumas dessas publicaram suas histórias, revelaram seu eixo teórico e processos de formação do psicanalista.

O livro Dimensões - Psicanálise. Brasil. São Paulo traz vasto panorama da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e de suas atividades: publicações, pesquisas, interações nas interfaces com outras disciplinas, com as artes, comunidades e com o movimento psicanalítico nacional e internacional. Não é possível nomear, dado o número, todos os psicanalistas que compõem a obra. Mas vale ressaltar, na pluralidade de vozes, reflexões sobre a psicanálise e exemplos de como se dá a relação psicanalítica.

Na introdução, o editor Plinio Montagna indica o contexto "do contato tão íntimo que se dá em uma relação analítica, com a complexidade de cada ser expressando-se por situações muito primitivas, ou nem tanto assim, de acordo com as oscilações pelas quais transitam os vários estados da mente humana".

Na formação dos analistas, há sempre um ponto de inflexão que corresponde à adesão à contribuição de um ou vários mestres da psicanálise e àquilo que transmitem. Em 1928, Freud escreveu a Durval Marcondes, cumprimentando-o pela fundação da primeira associação de psicanalistas da América Latina. Desta, derivou a SBPSP. Nos anos 50, as também fundadoras, Lygia Alcântara do Amaral e Virginia Bicudo, tiveram contato com Melanie Klein, em Londres, e trouxeram consigo "um acervo de técnica e ideias kleinianas" (relacionadas com a análise de crianças e noções ausentes dos conceitos freudianos). A partir daí, a formação foi tomando "um perfil mais britânico".

"O que pensaria Freud da intromissão de Klein?", pergunta Maria Olympia de Azevedo França. Sua indagação estende-se a Wilfred Bion, que veio a São Paulo nos anos 70. No início, segundo Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, suas concepções "causaram estranheza", por exemplo, sua recomendação de que o analista se abstenha de ter memória e desejo. A ideia insere-se na proposta de o analista não ter interpretações prontas, como fórmulas que se aplicariam a todos.

Um artigo indica o interesse, posterior, por outro britânico, Winnicott e "novas possibilidades de pensar a clínica da atualidade". Uma dessas decorre da valorização do ambiente e dos espaços psicológicos que se criam em cada relação, como aquele que permite o brincar, ação que só ocorre quando não há ansiedade, que permite ficar junto e também ficar só. Hoje, temos uma pluralidade de inspirações. O grupo Dialogando com Freud há 25 anos assume as influências francesas. Voltou ao estudo rigoroso de Freud em "sua incidência clínica". Trabalha também com textos de autores como Pierre Fédida, além de Lacan.

É preciso destacar, ainda, abordagens daqueles que, para alguns, criaram uma "psicanálise brasileira". Isaías Melsohn, conhecedor da teoria freudiana e estudioso de filosofia, dedicou-se a investigar os fundamentos da psicanálise e propôs "a reformulação de alguns conceitos básicos". Também o pensamento de Fabio Herrmann, criador da Teoria dos Campos, nasce da crítica, sobretudo da "crise diagnosticada na psicanálise." Na origem dessa, o fato de cada mestre ter agarrado "aquilo que, do projeto freudiano, entendia conter a psicanálise toda". Além de retomar a ideia psicanalítica freudiana e resgatar seu método, o autor mostrou que a psicanálise não nasceu confinada ao consultório, nem deve a esse se reduzir. Mas vale sublinhar algo do que escreveu sobre a conversa psicanalítica: "O elemento mais evidente é que analista e paciente não estão falando do mesmo assunto". O analista aguarda, para deixar surgir "a parte submersa do assunto trazido para o diálogo".

Percorridas múltiplas dimensões, Luís Carlos Menezes e Sandra Lorenzon Schaffa assinalam, em relação ao que se mantém da origem freudiana: "A psicanálise supõe uma atenção privilegiada do analista a algo que nas falas, sentimentos e pensamentos encontra-se além delas, ao mesmo tempo em que está nelas. Este além atesta os efeitos do inconsciente".

Nos depoimentos do livro, não há uma história oficial, que ignoraria contradições e encruzilhadas, nem tom solene. Em ponderações sobre ontem e hoje, Myrna Pia Favilli nos lembra da Barbie, "uma boneca que tinha bundinha, peitos, uma boneca mulher, sensual". Conta a respeito de um menino que brincava com ela e roubava as bonecas das irmãs. Sobre o futuro, uma ficção da psicanalista: um menininho diz a um robô querer brincar de uma coisa nova. O robô responde: "Fala o que te passar na cabeça que nós vamos continuar conversando". E a psicanálise continua, apesar de a autora ter imaginado um contexto em que a Sociedade se encontraria "perdida", em meio à tecnologia. Vislumbramos uma prática psicanalítica criativa, como o brincar.

Na década de 50, após um contato com Melanie Klein, a formação dos analistas foi tomando um perfil mais britânico

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