Sobrinha-neta de Tarsila do Amaral diz que ‘Abaporu’ nasceu de autorretrato

Tarsilinha expõe sua tese no livro 'Abaporu: Uma Obra de Amor', que será lançado em breve

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2014 | 19h39

Um autorretrato ousado. Um presente cheio de paixão. Quase 90 anos após ter sido pintada, Abaporu, a tela brasileira mais valorizada da história, ganha uma nova interpretação. Deve sair nos próximos meses o livro Abaporu: Uma Obra de Amor, escrito por Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta e responsável pelos direitos da obra da pintora modernista. (Leia trecho aqui.)

O livro foi a maneira encontrada por Tarsilinha para tornar público o insight que a acompanha há alguns anos: que o quadro mais famoso de sua tia - e um dos mais importantes da arte brasileira - foi, na verdade, um autorretrato de Tarsila, possivelmente nua, em frente a um espelho, feito para impressionar sua grande paixão, na época, o escritor Oswald de Andrade.

 

Foi por sugestão de uma amiga que Tarsilinha aventou essa hipótese pela primeira vez. Em 2011, resolveu fazer um inusitado teste - para "tirar a prova" de tal versão. Ela lançou a possibilidade de que o quadro fosse a reprodução de uma imagem refletida num espelho, um espelho que estivesse levemente inclinado, criando a deformação que caracteriza a obra.

Aproveitando-se da semelhança física com a tia-avó ilustre, Tarsilinha posou para um espelho inclinado - de forma similar à foto que aparece nesta página. "Ou seja, procurei imitar a provável pose que a artista teria assumido quando pensava no quadro que faria, naquele longínquo dia de 1928", diz ela, em trecho do livro. "A mágica se completou: a imagem que vi no espelho lembrava de maneira impressionante a figura do Abaporu, como se de repente tivéssemos nos deslocado no tempo e no espaço e, por um encantamento, encontrássemos a resposta de um enigma, uma chave nova para compreender uma obra por si tão cheia de mistério."

Tarsilinha recorreu a fotos e memórias de família para comprovar ainda mais fortemente sua interpretação. De acordo com uma sobrinha da pintora, Helena do Amaral Galvão Bueno, na casa onde Tarsila vivia com Oswald em 1928 havia um enorme espelho inclinado, apenas encostado na parede, justamente no corredor anexo ao quarto-ateliê que ela dividia com o escritor.

 

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"Outra semelhança entre a pintura e a pintora está no pé. Assim como o Abaporu, familiares acreditam que Tarsila também tinha o segundo pododáctilo maior do que o primeiro, o hálux", conta Tarsilinha. "Este detalhe anatômico teria sido percebido, na infância, por uma das sobrinhas-netas da pintora, Marília Estanislau do Amaral Powers - ela própria também dotada dessa característica, o que, por ser hereditária, só reforça a tese. Irmão de Tarsila, Milton Estanislau do Amaral, era outro da família que tinha os dedos dos pés assim."

Ciente da importância de Abaporu para a arte brasileira, bem como da potência das interpretações consagradas acerca do significado do quadro, Tarsilinha não pretende que essa sua conclusão se sobreponha ao sentido mais amplo e metafórico que a tela atingiu. "Com este livro, não quero mudar a brilhante ideia que Oswald de Andrade teve ao achar que o Abaporu era o homem plantado na terra. O importante é que fique também clara a inspiração da obra, a perspicácia de Tarsila do Amaral - sua capacidade de transformar uma cena do cotidiano, do acaso, no mais famoso quadro brasileiro de todos os tempos." Ou seja: ela lança um novo olhar à obra da tia-avó e reconhece que, para artistas geniais, a simplicidade do cotidiano é o bastante para impulsionar a criação.

 

 

A SAGA DE UM QUADRO

1928

Tarsila pinta o Abaporu e dá o quadro de presente de aniversário para Oswald de Andrade

1930

O casal se separa. Na divisão dos bens, Oswald leva O Enigma de Um Dia, de Giorgio de Chirico, e deixa o Abaporu

Anos 1960

Tarsila vende o quadro para o colecionador Pietro Maria Bardi. Um mês depois, Bardi repassa a obra para o colecionador Érico Stickel.

1984

Stickel vendeu a obra para Forbes, por US$ 250 mil - recorde na época para um quadro brasileiro

1995

Em leilão na casa Christie’s, em Nova York, o empresário argentino Eduardo Constantini paga US$ 1,5 milhão pelo quadro, o preço mais alto já pago por uma tela brasileira. Hoje, o quadro está no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires

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