Sobremesa vegetariana

Dediquei todos os minutos do jantar à tarefa pouco discreta de escutar a conversa alheia

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2017 | 02h00

O chamado El Corte Inglés é o equivalente espanhol da loja de departamentos francesa Galeria Lafayette ou da inglesa Harrods, espalhado pela península ibérica. Poderíamos até dizer que todas elas são primas europeias do finado Mappin, embora com um pouco mais de pedigree. Enfim, Lisboa também conta com uma belíssima unidade do El Corte Inglés, onde é possível resolver todas as pendências da vida: supermercado, presente para a sogra, ajuste nos óculos, desentupidor de pia, alimentos para periquitos e cacatuas, passagens aéreas, remédio para azia e antiderrapante para os tapetes.

Era uma noite de quarta-feira de inverno e eu perambulava pelos seis andares do edifício, tentando colocar a vida em dia. Cansada e faminta, dirigi-me à cafeteria com o plano de comer uma salada com água das pedras, que se consumou no ato de comer uma lasanha com meia garrafa de vinho tinto. Nessa ocasião, tive a sorte de presenciar um dos diálogos mais maravilhosos que já ouvi na vida. 

Tratavam-se de duas elegantes senhoras de cerca de 70 anos, com seus casacos em tons de cereja e azul-marinho, acompanhados de lenços de seda no pescoço, que estavam jantando e tomando oito vezes mais vinho tinto do que eu, na mesa ao lado da minha. Eu, em silêncio, usufruindo de um maravilhoso cansaço que me impedia de mexer no celular ou até mesmo de pensar, dediquei todos os minutos do meu jantar à tarefa pouco discreta de escutar a conversa alheia.

Depois de 15 minutos, já sabia que a senhora do casaco azul era a Ana e a do casaco vermelho era a Teresa. Falavam sobre viagens, sobre música e sobre os filhos, netos e sobre o marido da Teresa. Pelo jeito a Ana era viúva, pois, se fosse separada, creio que o ex-marido apareceria com mais frequência na conversa. Riam muito, mesmo quando o tema não era lá dos mais aprazíveis. Tinham um bom humor pouco frequente entre as portuguesas endinheiradas, que, acredito eu, poderia ser atribuído àquela amizade evidentemente sincera e necessária e também à fartura de vinho naquela mesa.

Foi então, entre um pedaço de pão e uma fatia de queijo fresco, que aconteceu o maravilhoso diálogo. Peço que me desculpem se não transcrevo o português de Portugal perfeitamente, mas essa conversa merece ser imortalizada. 

– Teresa, sabes que a Margarida está a fazer umas sobremesas vegetarianas que são mesmo boas?

– Sobremesas vegetarianas?

– Sim. São mesmo muito boas. Provei na semana passada.

– Ó pá Ana, mas e em qual sobremesa é que vai carne?

– ...? (Ana faz uma cara confusa... Silêncio)... (Ana começa a rir com a taça na mão)

– (Teresa, rindo) estou cá a imaginar uma bela sobremesa de chouriço!

– (Ana, rindo mais) ó pá, eu não sei, se calhar então não é vegetariana, é vegana.

– E o que é que é comida vegana?

– É sem nada de origem animal. Sem leite, sem ovo, sem óleo. Não. Sem manteiga. Óleo sim. Se não for animal.

– Ah... Mas como é que se faz sobremesa sem leite e ovo, Ana?

– A que comi era com Oreo (“oréo” em Portugal)

– COM ORÉGÃO?! (orégano em Portugal)

– (se esborrachando de rir e eu também, discretamente) OREO, OREO, OREO, TERESA. AS BOLACHAS OREO, AQUELAS PRETAS E BRANCAS.

– (se esborrachando de rir) ó Ana, como é que tu cais nessas tretas? Estás a dizer agora que Oreo agora faz bem para a saúde?

– (rindo e servindo mais vinho) não é pra fazer bem, é pra não matar os animais, Teresa.

– (limpando lágrimas da cara) e quem é que morre de leite e ovo, pá?

– (bebendo e rindo) olha, não conto mais nada para ti.

– (bebendo e rindo) essas merdas não precisas mesmo contar. 

Na sequência, seguiram falando dos netos, como se esse diálogo fosse praticamente normal. Seguiram bem-humoradas e semiembriagadas. Eu não sei como resisti à tentação de me aproximar da mesa e pedir para ser amiga delas. Deus me permita envelhecer assim.

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