Sexo, Deus e felicidade

Há santos de castidade heroica. São Bento jogou-se em espinhos para manter sua virtude

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 02h00

Não é bom que o homem esteja só. Deus fez uma análise da situação de Adão e concluiu que ele precisava de uma companheira. Era o modelo já consagrado dos animais no dia anterior: os bichos foram criados com macho e fêmea no quinto dia; Adão, solitário, no sexto, nascido de forma especial, sem similar. Eva é a única criação que parece ter sido fruto de uma necessidade nova, pois todos os outros seres já vieram completos, em pares.

O judaísmo nunca foi um defensor do celibato e da vida eremítica como seria corrente no cristianismo. Ter filhos era uma ordem: crescei e multiplicai-vos. O imperativo da descendência fazia passar por cima de convenções. O homem religioso é obrigado a tomar a esposa do irmão falecido, produzir um filho para perpetuar o nome do falecido. A regra do levirato permite à mulher ir ao tribunal reclamar caso o cunhado não se disponha a deitar-se com ela (Dt 25,5-10). Para ter descendência, a filha mais velha de Ló disse à mais nova para que embebedassem o pai e gerassem filhos/irmãos. O plano resultou no nascimento incestuoso de Moab e Ben-Ami (Gn 19, 31-37). 

O cristianismo trouxe a desconfiança da carne, a vida consagrada como modelo, a castidade como forma superior de entrega a Deus. Paulo sugeriu a castidade e indicou o casamento para os que não conseguissem controlar seu calor interno. “É bom para o homem abster-se de mulher”( I Coríntios 7,9). A pedra da igreja cristã fora Pedro, um homem casado. O modelo paulino superou o petrino.

 

A Igreja é santa e pecadora. Religiosos passaram a fazer um voto de castidade. São Bento, pai das comunidades monacais do Ocidente, jogou-se em espinhos para manter sua virtude. São Francisco de Assis o imitaria no milênio seguinte. Prudente, o santo fundador dos beneditinos recomendava no capítulo 22 da sua regra: “Que os irmãos mais jovens não tenham leitos juntos, mas intercalados com os dos mais velhos”. Também indicava uma luz no dormitório a noite toda. Castidade, sim, mas com o cuidado humano de evitar a tentação.

No século 11, sob o papa Gregório VII, a infração do celibato (nicolaísmo) foi, mais uma vez, alvo de legislação. Havia motivos teológicos tradicionais. O platonismo cristianizado desconfiava da matéria. Jesus nunca se casara nos evangelhos canônicos. Havia motivos materiais: o interesse de preservar os bens da Igreja. Sem casamento legal não haveria herança possível. 

A Igreja é santa e pecadora. Há santos de castidade heroica. Em episódio que muito agradaria a um psicanalista, Tomás de Aquino insistia em ser frade e os irmãos discordavam da ideia. Para afastar o futuro doutor da Igreja, introduziram uma prostituta no quarto do jovem vocacionado. O siciliano retirou um pedaço de madeira em chamas da lareira e avançou sobre a profissional. O lírio, símbolo da virgindade/castidade, perfumaria muitas imagens de santos e santas. A pureza de Maria seria tornada dogma desde cedo.

A castidade do clero virou norma, todavia não dogma. Isso significa que um papa, a rigor, pode aboli-la. Ao menos, pode retornar ao modelo dos cristãos ortodoxos, com padres celibatários e padres casados convivendo dentro da Igreja.

 

Lutero, há exatos 500 anos, revolucionou a organização eclesiástica. Traduziu a Bíblia para o alemão, eliminou o culto a relíquias, estimulou a ideia de salvação pela fé e a busca individual da iluminação de Deus pelas escrituras. Também quebrou o celibato. Monge agostiniano, casou-se com uma ex-freira cisterciense, Catarina von Bora. Tiveram seis filhos, e alguns alemães, como o ex-presidente Paulo von Hindenburg, afirmavam descender do líder reformista. Os modelos derivados do luteranismo, quase todos, eliminariam o celibato como norma.

Na América portuguesa, a regra foi imitar a infração europeia do celibato. A primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil ouviu, horrorizada, o depoimento do padre Frutuoso Álvares, vigário de Matoim. O venerando vigário de mais de 65 anos confessou ter tido muitos “tocamentos desonestos” com mais de 40 jovens entre 12 e 18 anos. O depoimento do sacerdote contém detalhes sobre seus gostos e posições sexuais. Estamos entre 1591 e 1592 e, de vez em quando, escuto alguém dizendo que o mundo de hoje está perdido...

A Igreja Católica contemporânea, em comparação com a medieval e moderna, está notavelmente mais pudica. Sim, mas são de menor vulto do que no passado.

O papado, em particular, virou um monumento ebúrneo de virtudes morais nos últimos 200 anos. Compare-se o atual papa Francisco ou João Paulo II com Alexandre VI ou Júlio II e veremos a diferença. Houve rumores vagos sobre Pio XII e a sua governanta alemã por quase 40 anos: madre Pasqualina Lehnert. A religiosa assumiu funções relevantes no Vaticano. O papa de cera, com suntuosa tiara pontifícia, na sua cadeira gestatória, ignorava os rumores de que Pasqualina se tornara “la popessa”, a papisa.

 

Podemos pensar de forma original que a Igreja contemporânea apresenta um modelo de castidade em um mundo que está quase exausto da liberdade/libertinagem sexual. O refluxo conservador que vivemos no Ocidente talvez dê aos textos de Paulo uma nova atualidade. Quem precisar se casar que o faça, mas, se puder… Santos castos e maridos e esposas exaustos dirão: que sabedoria apostólica! Bom domingo a todos vocês. 

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