Serviço à carioca

Os garçons dizem que já vão. E não vão. Você pede mais uma vez, duas. Uma hora eles chegam

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 02h00

Sempre que vou ao Rio de Janeiro me lembro de algumas coisas. A primeira é do quão maravilhosa é aquela cidade. Não tem jeito, não canso de me deslumbrar, ano após ano. A segunda é que, por mais que eu ame aquela cidade, acho que nunca me adaptaria a viver ali. Isso porque eu acho que sou paulistana demais para sobreviver ali. E isso nem tem a ver com o calor ou a violência. Tem a ver com o serviço.

Já viajei bastante e chego sempre à conclusão de que ser acostumado com a prestação de serviço de São Paulo é um vício maravilhoso que frequentemente se transforma numa maldição. Isso porque eu ainda não achei lugar no mundo onde o serviço funcione tão bem quanto o de São Paulo, seja em lojas, restaurantes, bares ou tantas outras coisas, e a gente sempre acaba se frustrando um pouco por causa disso.

Mas o serviço no Rio merece um capítulo à parte. Trata-se de uma coisa muitíssimo peculiar, que deveria ser analisada por uma bela equipe composta por sociólogos, historiadores e psicólogos. Toda vez, eu tento entender o que se passa e acabo no mesmo mato sem cachorro.

Porque o serviço na cidade maravilhosa funciona mais um menos assim: a gente chega a um restaurante e começa a procurar algum garçom para perguntar se podemos nos sentar naquela mesa (sim, paulistanos fazem isso, somos disciplinados por natureza). Geralmente, demoramos para encontrar um garçom e, quando perguntamos, ele não sabe responder. Tudo bem, vamos nos sentar lá mesmo assim. 

A mesa está meio suja, mas já já alguém vem limpar e nos atender. Já já. Ou talvez daqui uns 5 minutos. Ou 10. Possivelmente 15. Oi! Moço! Oi! Por favor! Você pode limpar aqui? E me dar o cardápio? Eles sorriem, porque via de regra são simpáticos. Dizem que já vão. E não vão. Você pede mais uma vez. Talvez duas. Uma hora eles chegam.

E então você faz o pedido: uma coca zero e um bife bem passado com legumes e arroz. Depois de cerca de 40 minutos chega o bife, malpassado, com legumes e batata. Se for sua primeira vez no Rio, você pede para trocar. Se não for, você come aquilo mesmo, sem dizer nada. Mas ocorre que a bebida não veio até agora. Você diz: Oi! Oi! Moço! A minha coca zero tá vindo? Com gelo, por favor. Mais 15 minutos. Chega uma coca normal e um copo com rodelas de limão.

Depois de comer, você quer pedir a conta. Segue mais uma batalha. Começamos a perceber que estamos constrangidos de chamar o garçom outra vez. Parece que estamos incomodando o simpático moço com nossos intermináveis pedidos: mesa, bebida, comida, conta. Sentimos que estamos abusando, que deveríamos deixar o pobre garçom em paz.

Mas, enfim, a conta chega (com erros, provavelmente) e subitamente todos os garçons desaparecem e você não tem para quem pagar - seja em dinheiro ou com cartão. Eu, algumas vezes, quase cogitei ir embora e entrar com uma ação em consignação em pagamento, depositando em juízo o valor da conta, porque comecei a achar que assim seria mais rápido. Não sei, nunca testei, mas é capaz de valer a pena.

Quando você consegue pagar, das duas uma, ou não tem troco ou a máquina do cartão está sem sinal. Também há um outro fato que acontece no Rio, que é o misterioso desaparecimento de maquininhas de cartão. Não encontram nenhuma e você fica com aquela cara de “pois é”, achando que talvez devesse propor pagar com precatórios.

Mas, tudo bem, demorou, mas deu tudo certo. Você sai do restaurante e decide pegar um táxi. Assim que entra, já começa a pedir desculpas. Não sabe bem por que: talvez por tê-lo obrigado a parar, talvez por estar invadindo o carro dele, talvez porque sua corrida só dê uns 18 reais. Sei lá, no Rio, a gente sempre já vai logo pedindo desculpas. Porque, afinal, coitados desses prestadores de serviço de lá: eles têm que aguentar os clientes. Dureza.

 

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