Segundo round: Obama x Mitt

Hoje, teremos o segundo debate entre Mitt Romney e Obama, em luta pela presidência dos USA. É um dia crucial para todos nós, pelo que pode acontecer ao mundo. As eleições americanas podem mudar nossa vida para melhor ou para muito pior.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2012 | 08h22

A vitória eventual (valha-nos Deus) de um sujeito como Mitt Romney e seu vice coloca no poder tudo de perigoso que a direita tem nos seus 'chás envenenados', os 'tea parties' que desejam recolocar a nação no século 18, sob o pretexto de voltar à velha religião dos fundadores puritanos. Os republicanos têm o mesmo pavor do mundo moderno que os islamitas e cantam como eles: "Gimme that old time religion."

E o perigo aumenta depois que Obama teve um mau desempenho no primeiro debate, em parte por narcisismo, pois estava "se achando", e em parte por ingenuidade, achando que ideias verdadeiras impressionam os eleitores americanos.

Mitt, bem treinado por sua equipe, despejou um discurso de mentiras com altivez e articulação, com sua cara perfeita para presidente, seu rosto "mix" de Clinton com Kennedy, cabelo grisalhos, olhos úmidos e um sorriso irônico nos lábios, tudo estudado para arrasar Obama, que a seu lado parecia um vendedor de amendoim. Os democratas esqueceram que no discurso político importa muito mais o tom, o ritmo da frase, o sorriso na hora certa, a ênfase de falsas certezas, a beleza do rosto "wasp". Mitt parecia um Lula ou um Maluf falando inglês: tudo para a mídia, todas as inverdades ditas com precisão e certeza, diretamente para os 60 milhões de imbecis que elegeram o Bush.

Eu estava nos USA quando ficou claro que a barra ia pesar. Senti um arrepio quando rolou o caso com a Monica Lewinsky, naquele boquete que mudou o mundo - de seus lábios de histérica republicana nascia a vitória de Bush.

A sexualidade foi o ponto de partida. Depois, tivemos o medo careta do Al Gore, que não defendeu Clinton com medo da esposa, tivemos a fraude eleitoral e, em seguida, o 11 de setembro que legitimou o Bush como "presidente de guerra".

Arrepiei-me outro dia de novo, durante a convenção democrata, quando notei um rápido tremor de medo, uma súbita sombra que passou no rosto de Michelle Obama enquanto Clinton fazia seu discurso histórico, arrasando os republicanos. Senti que Michelle por um segundo percebeu que o charme infinito, branco e "wasp" de Clinton poderia eclipsar o marido, sabia que a ajuda de Clinton era excelente e ao mesmo tempo perigosa - poderia relegar Obama para um papel de coadjuvante. Pode ter sido impressão minha, mas confirmou-se no primeiro debate. E talvez se aprofunde no segundo, hoje à noite, quando Mitt resolver com sua equipe de fascistas inteligentíssimos como Karl Rove, voltar atrás e bancar o "moderado", negando todas as barbaridades reacionárias que já proferiu. Se bobear, o negão fica de "radical comuna" e ele de "democrata". Vamos ver.

É impressionante: tudo que vivemos hoje começou com Osama bin Laden e seu lugar-tenente Bush, que cometeu todos os erros que Osama queria. Osama despertou o espírito guerreiro dos republicanos e provocou um estrago no Ocidente, desde as 2 guerras que custaram 3 trilhões, o terrível déficit publico e as sementes da desregulamentação de Wall Street, que provocaram a crise mundial na economia. De certo modo, Osama foi um vencedor e, se Mitt ganhar, ele terá servido sua vingança como um "prato frio".

A nação americana se inflou de novo como sendo o "país excepcional". É como se os republicanos dissessem: "Chega de frescuras de democracia, internacionalismo multilateral, tolerância, bom senso! Vamos botar pra quebrar!"

O que nos choca nisso tudo é a inatualidade do fenômeno. Eles negam a existência do século 20, da ciência, da arte, da politica, da filosofia. Negam Marx, Freud, Picasso, renegam Darwin e seus macacos.

E eles encarnam o pensamento dos milhões de idiotas que jazem entre o hambúrguer e o sofá diante da TV, que acham que problemas se raspam, que dissidências se esmagam, que complexidades devem ser achatadas, que o múltiplo tem de virar "um", que tudo tem um principio, meio e fim. Eles são contra todas as conquistas do pensamento contemporâneo: contra a sexualidade antes do casamento, aborto, homossexualismo, acreditam em Adão e Eva, odeiam o plano de saúde de Obama, odeiam tudo que possa contrariar o atávico individualismo americano, para quem os pobres são vagabundos que fracassaram na vida.

Goya fez gravuras de guerra com o nome "Tristes pressentimentos do que há de acontecer". Na minha pequenez também arrisco profecias:

Se o Mitt for eleito, voltará a grande máquina careta onde todos se encaixam como parafusos obedientes, uma máquina que paralisa o presente num passado eterno, para impedir um futuro que lhes fuja do controle. Os republicanos não têm mais nada a aprender; eles moram na certeza, na eternidade, exatamente como os suicidas de Osama. Como os islamitas, o grande desejo letal, funéreo dos republicanos é a cultura da morte, a destruição de todas as conquistas progressistas dos anos 60 e 70: liberdade, antirracismo, direitos civis. Querem limpar tudo com o detergente da estupidez.

Estamos às vésperas de uma bruta mudança histórica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por uma tragédia que pareça uma "revelação". Sim. Diante de tantos fatos insolúveis, surge a fome por algo que ponha fim ao "incontrolável", a coisa que americano mais odeia. Na direita do Pentágono, isso é visível. Mesmo uma catástrofe atômica no Oriente Médio parecerá uma "verdade" nova.

O Islã jamais aceitará a modernização da globalização, jamais aceitará o "individuo", jamais abandonará seu desértico desejo de martírio e o Ocidente está cada vez mais perto do irracionalismo e da vingança. Com isso, os filhotes de Bush terão completado a obra de sua anomalia mental feita de fanatismo religioso, complexo de Édipo e rancor contra as "elite" que sempre o desprezou. Hoje, não percam: mais um passo para nosso destino.

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