Saudade quase sem memória

O tempo no Brasil dá saltos perigosos: avança, tropeça e corre na direção do abismo

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 03h00

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Existe mesmo o tempo?
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João Guimarães Rosa

“Anos e anos em busca de um objeto”, disse minha amiga, “e quando parei de procurá-lo, ele me encontrou.” 

Que diabo de objeto é esse?

“Um pequeno demônio do passado: um relógio antigo. Quando eu tinha cinco anos, meu avô disse para minha mãe que um relógio não era presente de menina, mas era tudo o que ele tinha de valioso para a única neta. Foi a herança do meu avô. Uns dois meses depois, ele morreu. E eu cresci com ‘uma saudade quase sem memória, uma saudade que a gente nem sabe que tem’. A infância passou com rapidez: foi um salto para outro tempo. Às vezes, no meio da manhã, os ponteiros do relógio antigo marcavam três e cinco, ou quinze e cinco. Era a hora da tarde ou da madrugada, o dia ou a noite. Eu me esquecia de dar corda no relógio, o tempo parecia travado ou interrompido, os ponteiros permaneciam parados numa hora morta. Aí eu pensava nos intervalos da vida. Era uma diversão no fogo da adolescência, que já se apagava. Anos depois, essa diversão passou a aguçar minha memória: o que a gente esquece, e o que a gente não pode esquecer. O tempo no Brasil dá saltos perigosos: avança um tiquinho, tropeça, dá cambalhotas, retrocede muito e corre na direção do abismo. Lembro com nitidez um dia de 1990, ano de um confisco criminoso, feito pelos economistas do caçador de marajás. Naquele ano horrível, muita gente ficou na penúria, meu pai sofreu um enfarte e nos deixou. Tranquei minha matrícula na universidade, tive de trabalhar para sobreviver, minha mãe foi obrigada a vender o relógio. Mas eu não parei de ler. O prazer da leitura prevaleceu sobre a dor do luto e a rotina tediosa do trabalho. O relógio não tinha para mim uma qualidade sobrenatural, era apenas um objeto que lembrava uma pessoa querida. De tanto observar as fotos do meu avô, pensei em escrever um retrato imaginário dele, de poucas páginas. Mas não consegui, e acabei escrevendo um soneto... Quer dizer: reescrevi um poema de um autor que admiro, nós reescrevemos o que lemos, um poema alheio pode ser meu ou de qualquer leitor.” 

Um soneto sobre o tempo?

“Sobre a arte da poesia, o que dá no mesmo. A conversão do ultraje dos anos em uma música, um rumor, um símbolo... Passei vinte e seis anos procurando o presente do meu avô, eu acreditava que um dia o comprador do relógio ia revendê-lo para mim. Esse objeto se tornou uma roseta metálica, um símbolo…” 

Mas isso tem algo de mágico ou sobrenatural, eu disse. 

Minha amiga abriu um sorriso e depois a bolsa, de onde tirou um relógio prateado, e colocou-o sobre a mesa. Era muito antigo, de algibeira, com uma longa corrente de prata, que formava na mesa uma fina serpente em espiral. 

“Hoje, digo brincando que o relógio do meu avô não era exatamente um mecanismo para medir o tempo, e sim um joguete metafísico, uma diversão sem regras, cheia de indagações e dúvidas, que a gente lê nos livros de filosofia e literatura. Nossa mente existe sem uma sucessão de ideias no tempo? Nossa desordem interior não subverte qualquer ideia de sucessão? A dor, o desejo, o sofrimento e o afeto pertencem a alguma categoria temporal? Existe mesmo o tempo?”

E o poema, existe mesmo?

“Sim, no livro do poeta e na minha memória: Olhar o rio feito de tempo e água/ e recordar que o tempo é outro rio,/ saber que nos perdemos como o rio/ e que os rostos passam como a água…”

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