Santiago Nazarian lança "Mastigando Humanos"

Quando mais jovem, o escritor Santiago Nazarian tinha uma especial predileção por jacarés, a ponto de passar a infância e a adolescência estudando répteis e até viajar para o Pantanal só para ver o animal de perto. Pois é justamente um jacaré o personagem principal de "Mastigando Humanos" (Nova Fronteira), quarto romance de Nazarian, que participa nesta quarta-feira de um lançamento, na Livraria da Vila. No cardápio, além do próprio livro, o prato principal será uma bem humorada degustação de carne de jacaré. Aos 29 anos, Nazarian ainda não está disposto a virar um rótulo. "Com ´Mastigando Humanos´, decidi fugir de algumas premissas pessoais e apresentar meu livro mais bem humorado, mostrando que considero fundamental experimentar novas direções" disse ele, que conta a história de um jacaré que nasceu no Pantanal e decidiu viver no esgoto de uma grande cidade. Ali, descobre não só um novo habitat, marcado pela sujeira, como ainda convive com ratos autoritários, sapos boêmios, tonéis de óleo sedutores, cachorros esquálidos e outros seres absurdos. Quem apostar em um retrato bem emoldurado do subterrâneo da sociedade, já caminhou metade da estrada, mas Nazarian não se basta com uma mera lenda urbana - o livro traz ainda um caldeirão de referências que vão de Thomas Mann, Kafka e Lya Luft a Mickey Mouse, Godzilla e Eduardo Dussek, sem esquecer das referências à música pop contemporânea, erotismo animal, literatura gótica e alta gastronomia. Uma miscelânea que explica o subtítulo do livro, "Romance Psicodélico". "Já escrevi antes sob o ponto de vista feminino e masculino, então resolvi experimentar agora a visão de um animal", conta Nazarian que, aos poucos, consegue se firmar como um autor que se impõe pela escrita e não apenas pelo currículo peculiar, como ter trabalhado como barman em um prostíbulo gay e ter escrito conteúdo para disque-sexo. E "Mastigando Humanos" representa seu passo mais ousado - se nos livros anteriores ("Olívio", "A Morte sem Nome" e "Feriado de Mim Mesmo") ele exercita diferentes estilos e realidades, no romance atual Nazarian utiliza um animal de sangue frio para mostrar o amadurecimento do protagonista. Sim, o famoso ?romance de formação?, mas, ao contrário da fórmula tradicional, o jacaré evita arrebatamentos comuns em narrativas desse estilo, adotando uma posição irônica e reflexiva. "Foi o livro que me tomou mais tempo de criação", conta Nazarian, notório pela fluidez com que escreve. "Dessa vez, senti a necessidade de fazer mais correções, cuidar mais de algumas passagens, aprimorar o humor." E talvez por isso mesmo que ele vem sentindo com mais intensidade os efeitos da ansiedade, característica tão marcante em escritores. A essência de sua escrita, no entanto, continua a mesma, pois Nazarian ainda é um provocador. Frases como "Todos os prazeres são orais", "O erro do dinossauro foi querer aparecer demais" ou "Se eu tivesse asas, não me prenderia a detalhes" pontuam o texto, que ganhou ilustrações de Marco Túlio R., cuja graciosidade tem o mesmo efeito do texto, ou seja, encobre dúvidas existenciais. Curiosos também são os nomes que o escritor escolheu para seus personagens, como o sapo Vergueiro, o cão Brás, o tonel de óleo Santana, o esqueleto Tiradentes, o rato Patriarca e o menino Artur Alvin - todos inspirados em estações de metrô de São Paulo, ou seja, retirados do subterrâneo. Misterioso apenas o jacaré, cujo nome é sugerido apenas nas linhas finais. Talvez um artifício para o leitor arrojado tachá-lo por conta própria de Santiago, cuja trajetória se assemelha a seu alter ego: nascido em meio à natureza, hoje ele enfrenta as deteriorações da cidade grande. Mastigando Humanos. De Santiago Nazarian. Editora Nova Fronteira. 224 pág. R$ 24,90. Livraria da Vila. Rua Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, (11) 3814-5811. Amanhã, 18h30

Agencia Estado,

19 Setembro 2006 | 18h43

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.