Sai pela Cult Classic a comédia 'Os Amores de Uma Loira'

Filme lida com um assunto sério: a vida sob o comunismo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

Obra seminal da Nouvelle Vague checa, Os Amores de Uma Loira (DVD Cult Classic) está prestes a completar meio século no próximo ano - e ainda em plena forma. Realizado em 1965 pelo diretor Milos Forman, um dos poucos cineastas a ser indicado três vezes ao Oscar (ganhou dois), o filme registra o momento de transição da extinta Checoslováquia antes da chamada Primavera de Praga, marco da insatisfação com a rigidez do regime comunista. Ele é traduzido no cotidiano de uma operária de uma fábrica de sapatos, entediada com a vida medíocre de sua pequena cidade, subitamente invadida por um batalhão de soldados.

Aguardados com ansiedade pelas moças do vilarejo, que registra alto índice de nascimentos do sexo feminino, os velhos reservistas - alguns casados - acabam decepcionando as jovens à espera de recrutas da sua idade. Num baile promovido pela direção da fábrica, a interação entre operárias e militares se revela desastrosa. Forman aproveita bem essa falta de sintonia para aproximar Andula (Hana Brejchová), a garota loira do título, do jovem pianista Milda (Vladimir Pucholt), que a seduz com a proposta de ler seu destino na palma da mão.

Em nome da nova paixão, Andula até esquece o namorado Tonda (Antonin Blazejovsky) e o compromisso selado com um valioso anel de diamante, que ele tenta reaver a todo custo quando percebe o súbito desinteresse da moça. Atraída pelo pianista, ela vai atrás dele em Praga, sendo mal recebida por sua família disfuncional.

Tanto o encontro de Andula com os desorientados pais do músico como o conturbado baile dos soldados, em que um dos militares vê rolar a aliança de casamento sob as pernas das operárias, rendem sequências engraçadas. Forman, cruzando a fronteira da ‘screwball comedy’, consegue o delicado equilíbrio entre crítica social e comédia romântica. Foi o filme que lhe abriu as portas da produção estrangeira - e o diretor, efetivamente, saiu de seu país após a invasão de Praga pelos tanques soviéticos em 1968. Depois de Os Amores de Uma Loira ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o cineasta rodou nos EUA o desconcertante Taking Off (Procura Insaciável, 1971), sobre a busca de um casal burguês por sua filha, que resolve virar hippie.

Forman foi um produto da rebeldia que resultou na Primavera de Praga e desembocou na contracultura - e ele filmou Um Estranho no Ninho (1975) e Hair (1979), ambos atestando sua adesão ao movimento. Ao mesmo tempo, sua ambição cresceu ao dirigir a superprodução Amadeus (1984), que lhe rendeu o segundo Oscar. Não que o diretor tenha esquecido os primeiros (e bons) filmes checos, como Pedro, o Negro (1964) e O Baile dos Bombeiros (1967), ambos disponíveis em DVD.

No entanto, o formalismo excessivo das produções dirigidas no estrangeiro, entre elas Valmont (1989) e Goya (2006), contrasta com o despojamento da fase checa, o que não significa negligência, especialmente porque Forman cercou suas primeiras produções de cuidados. Exemplo disso é o trabalho de seu constante colaborador, o fotógrafo Miroslav Ondricek, que colaborou em Os Amores de Uma Loira e nos filmes mais populares de sua fase americana (Hair, Ragtime, Amadeus).

O que não mudou foi o interesse de Forman pelos desajustados. Se a operária Andula não encontra lugar num mundo patriarcal e autoritário de Os Amores de Uma Loira, os personagens eleitos em seus filmes americanos confirmam sua fidelidade aos temas sociais - sejam eles o injusto confinamento daqueles que a sociedade considera insanos (em Um Estranho no Ninho), o preconceito racial (em Ragtime) ou o puritanismo protestante que condena um editor (em O Povo Contra Larry Flint). Uma coisa é certa: mesmo com o orçamento milionário dos filmes americanos, Forman não foi cooptado nem perdeu o afeto por seus rebeldes. Não é pouco em se tratando de Hollywood.

De volta ao território europeu em 2006, Forman realizou um ambicioso filme, Sombras de Goya, em que retrata o pintor espanhol como um rebelde acossado pela Inquisição, lutando para livrar da prisão uma modelo de sangue judeu. O roteiro de Jean-Claude Carrière, habitual colaborador de Buñuel, privilegia a relação de Goya com a política e sua sintonia com os ideais dos revolucionários franceses. Forman não perdera sua força crítica em todos esses anos fora da Europa.

OS AMORES DE UMA LOIRA

Direção: Milos Forman

Lançamento: Cult Classic (R$ 36)

Audition (1964)

Não lançado em DVD no Brasil, o filme de Forman é uma média metragem de 47 minutos sobre um teste de cantores, precedido de um episódio engraçado sobre um trombonista que tenta escapar do líder autoritário da banda para ver uma corrida de motocicletas. Antes do BBB, Forman mostra pessoas comuns tentando sair do anonimato.

Pedro, o Negro (1964)

Lançado em DVD pelo selo Cult Classic. É uma sátira sobre um adolescente que consegue emprego numa mercearia, mas entra em crise ao ser obrigado a espionar os fregueses.

O Baile dos Bombeiros (1967)

Lançado em DVD pela Continental. Numa pequena cidade checa, o Corpo de Bombeiros organiza uma festa para homenagear seu patrono, que termina numa orgia de mulheres e bebidas. Crítica ao corrupto sistema soviético, como definiu o diretor.

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