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Ruy Guerra faz muitos planos aos 80 anos

FLAVIA GUERRA - O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2012 | 03h 09

Cineasta prepara novo filme, dirige peça inspirada em Joyce e planeja carreira de escritor

Ruy Guerra ama a palavra. O que para muitos cineastas soaria incoerente, já que, a priori, a sétima arte prima pela imagem, para Ruy Guerra é a parte de um todo maior. Ruy Guerra é artista. E como tal, sabe que seu perfil é feito não só da imagem ou da palavra, mas também do teatro, da música, da fotografia, das aulas que ministra e até mesmo da literatura. A propósito, aos 80 anos, está decidido: vai se dedicar aos seus livros depois dos 100.

"Não é na aposentadoria. Depois dos 100, finalmente vou ter tempo. Fazer um filme a cada quatro anos... Tentar bater o Manoel de Oliveira, que aos 104 ainda filma... ", brincou o diretor em conversa com o Estado no domingo, após a sessão de sua mais nova empreitada: a peça Exilados, primeira adaptação na América Latina da obra de James Joyce, em cartaz no Teatro Nair Belo. A ação se passa em Dublin, no início de 1912, e traz o triângulo amoroso entre o escritor Richard Rowan (André Garolli), sua mulher Bertha (Franciely Freduzeski), uma jovem mulher à frente do seu tempo e Robert Hand (Álamo Facó), jornalista e amigo de Richard, apaixonado por Bertha que se vê em conflito entre seu desejo e as convenções sociais.

Como parte do complexo perfil de Ruy Guerra, dirigir teatro não é só mais uma maneira de ganhar a vida, mas um exercício de linguagem. O que ele pratica nos palcos, o contato que tem com os atores, o trabalho de adaptação do texto de Joyce para o 'brasileiro' aplica nas outras artes, como no caso de Quase Memória, próximo filme baseado na obra de Carlos Heitor Cony, previsto para o próximo ano.

O mesmo ocorre com o teatro, para onde leva o que praticou a vida toda no set. A montagem do texto de Joyce, que consumiu três meses ininterruptos de trabalho para ser adaptado, em parceria com Diogo Oliveira, possui nítidos elementos do cinema, como a forte marcação de cena.

A propósito, a conversa com o Estado ocorreu na casa da historiadora e amiga Vavy Pacheco Borges. O local não foi por acaso: Vavy está escrevendo a biografia de Guerra e, em parceria com dois pupilos e assistentes dele, Diogo Oliveira e Bruno Laet, prepara um documentário sobre o diretor nascido em Moçambique, que escolheu o Brasil para viver e ganhou prestígio mundial após dirigir obras-primas como Os Fuzis (1964) e Os Cafajestes, (1962).

Você adora a palavra. Isso se confirma nos temas de seus filmes que se inspiram em livros como Estorvo (de Chico Buarque) e O Veneno da Madrugada (inspirado em La Mala Hora, de Gabriel García Márquez). É muito diferente adaptar para o teatro?

Sim. Amo a palavra. Mas são dois meios diversos e dois desafios. No caso de Joyce, enxugamos bastante o original. Não é complicado trabalhar no texto, mas quando há uma proposta mais visual no palco, tendo a olhar com olhos de cineasta.

Isso é um problema?

Não. Cinema é minha referência primordial. Como não tenho o hábito de visitar ensaios de teatro, assim como não vou a sets de filmagens, é quase instintivo trazer minha experiência como diretor de cinema. Confesso que há um rigor meu de decupagem das cenas, de posicionamento dos atores, do uso da luz, que fogem à regra do teatro.

Os atores reclamavam?

Não, mas achavam que eu exorbitava no rigor. Mas a posição do ator na cena, o ângulo, muda muito, dependendo de onde se senta na plateia... E eu me preocupo com isso. Exilados é construído para ter luz e sombras.

A dramaticidade está no jogo de luz, não? Sem contar o corte entre as cenas. A luz que se apaga, sugerindo elipse de tempo, é o corte ou o fade out do cinema?

Exato. É dessa contaminação entre as artes que gosto. É assim que penso e trabalho. Como sou um artista em condição de país subdesenvolvido, sempre tive de me diversificar, trabalhar em várias áreas e frentes. E para mim isso é uma vantagem. Mas sou respeitoso. Por exemplo, não mexi muito no texto. Tirei, mas não acrescentei nenhuma palavra. Afinal, não se pode brincar com um texto de Joyce.

O que mais gosta no texto?

Gosto da noção que Joyce dá de que não há verdade nem mentira. Ninguém, nem o público, sabe se os personagens estão sendo sinceros, hipócritas, manipuladores ou não. Todos se manipulam e sofrem o tempo todo. Sem contar que a temática da liberdade dentro de um casamento era e ainda é muito avançada. Talvez por isso tenha sido pouco montada. Até hoje isso é pouco discutido e sem solução. Nossa mentalidade é hipócrita. Aceitamos a traição mental com tranquilidade, mas na prática, não. Há a pressão social, o cara já vira corno... Não estamos preparados para a verdade.

Sobre cinema, por que tem dificuldade de financiar seus filmes?

Minha imagem atrapalha. Por meus filmes que saem da narrativa habitual. Quando meu nome surge, os novos roteiros já são classificados de cult. É o caso do Tempo e a Faca, que seria produzido pela Conspiração. Disseram que era cult. E isso não dá público. Irônico é que os filmes "comerciais" também não vão tão bem. Como vou viver até os 116, não tenho pressa.

Você ainda sofre preconceito por trabalhar em várias áreas?

Se eu fosse americano, provavelmente seria consagrado. Mas tenho de sobreviver. Desenvolvi atividades paralelas. Esta condição do subdesenvolvido é enriquecedora. Hoje prefiro ser alguém que escreve música, peça, atua, escreve... Aliás, adoraria voltar a ser cronista do Estado, em que escrevi nos anos 80. Não chego ao nível de um renascentista, mas pelo menos estou criando.