Rivane Neuenschwander inaugura mostra na Fortes Vilaça

Mineira apresenta a partir desta terça-feira Coisa de Ninguém, Coisa de Todos

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 04h02

Na mostra Coisa de Ninguém, Coisa de Todos, que a mineira Rivane Neuenschwander exibe na Galeria Fortes Vilaça, tudo é apropriação e desapropriação. Rivane, que geralmente se nutre dos elementos do cotidiano para construir seus trabalhos, agora criou obras a partir de faixas com mensagens - pessoais, propagandas, algumas vezes, protestos - encontradas nas ruas; letreiros de fachadas de estabelecimentos; e desenhos de porta de banheiros públicos de São Paulo, Belo Horizonte e Nova York. "Não quero ficar marcada por um tipo de obra", diz a artista, que já realizou trabalhos com fitinhas do Senhor do Bonfim com desejos inscritos, instalações com baldes, blocos de sabão... Sempre é falado que sua poética se faz do cotidiano que a gente não observa, do que quase nem mais prestamos atenção - uma trilha de formigas, por exemplo -, e essa é sim característica forte da obra de Rivane. Mas, cada vez mais, as questões em seus trabalhos vão deixando a escala do doméstico para tratar da "escala da cidade" - o pequeno fato do "inobservável", com Rivane já disse, se expande para a fronteira (e do confronto) entre público/privado. É o caso da instalação Uma ou Outra Palavra Cruzada, que ocupa a sala principal da galeria. Quadrados de tecido branco com letras inscritas estão pendurados por todo o espaço formando palavras, como num grande jogo de palavras cruzadas no ar. As letras têm como origem as faixas de rua: depois de fotografar diversos tipos delas, penduradas pelas cidade, a artista desmembrou suas letras, com cores distintas e de tipografias das mais diferentes, geralmente, manuais, as recortou, para que se cruzassem e formassem outros sentidos no espaço. "Esse trabalho partiu do incômodo com a saturação das imagens na cidade, colocadas sem que ninguém nos consulte, é algo arbitrário", diz a artista, que vive e trabalha em Belo Horizonte. "BH ainda é muito poluída, São Paulo está ficando mais limpa", completa Rivane, fazendo menção à recente Lei Cidade Limpa, do prefeito Gilberto Kassab, contra a poluição visual na capital paulistana. Diferentes interação Desse "incômodo estético" Rivane criou uma outra estética na sala da galeria baseada num certo "popular pop", como diz a artista. As palavras, que ela trabalha há tempos, estão lá, mas a construção formal de sua instalação não é mais tão sutil, "é mais contundente", reforça Rivane, ocupa todo o espaço num grande emaranhado de letras. A participação do visitante, também uma característica presente nas criações da artista, mais uma vez é requerida: é preciso transitar pelo espaço para ir reconhecendo as palavras, para formá-las pouco a pouco, para perceber suas junções, ou até mesmo, para criar uma narrativa aberta apesar de a questão da narrativa não ser parte da proposta de Rivane. Há gradações na maneira como a participação do público entra no trabalho de Rivane. Se na instalação Uma ou Outra Palavra Cruzada os visitantes têm de transitar, na obra Mapa-Múndi BR os cartões-postais criados pela artista com fotografias das fachadas e letreiros de 65 estabelecimentos de Belo Horizonte com nomes de cidades do mundo (Hotel Madri, Restaurante Bagdá, etc.) podem ser levados pelo público. "Eu me interesso pelo que esteja sempre em transformação, a questão de não ter controle. A participação do público está no sentido de transformar o trabalho o tempo inteiro, mas não sei se ele pode transformar as pessoas", diz Rivane. As associações com lugares do mundo presentes nos cartões mais uma vez tratam do tema do transitar. E, por fim, no mezanino da galeria, está o painel Atrás da Porta, uma composição cromática e formal com reproduções em silk-screen de 143 desenhos tirados de portas de banheiros públicos de três cidades diferentes. Os desenhos - não há palavras - foram fotografados por outras pessoas que não a artista - e depois transformados nas partes do painel. De quem é a autoria? Depois da apropriação como o original pode se transformar em algo diferente? Enfim, esse é o tema que perpassa todos esses trabalhos de Rivane. Rivane Neuenschwander. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, 11-3032-7066. 2.ª a 6.ª, 10 h às 19 h; sáb., até 17 h. Até 23/6

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