Ritual de sacrifício

Evanescence traz catarse gótica a 7 mil fãs fervorosos, em São Paulo

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2012 | 03h13

Uma fila de barracas decorou a calçada oposta ao Espaço das Américas durante o último mês. Veio o VMB, o Sertanejo Pop Festival, um show da Ivete, outro dos Titãs, e elas continuaram lá, habitadas por cerca de 45 jovens. Seria ocupação? Protesto estudantil? Não, era fanatismo pelo grupo de rock metal pop gótico (insira aqui o seu adjetivo genérico), Evanescence. Nada de novo se fosse um show do U2, ou um de Sir Paul, em que acampar é estratégia, pois a competição por um lugar próximo do palco é acirrada. Mas no caso de Evanescence, que tocou no Espaço das Américas neste domingo à noite, foi um ritual de sacrifício.

Os ingressos não estavam esgotados e 7 mil compareceram, em grande parte mulheres, que sintonizam intensamente com o rock emotivo do grupo ("Estou tão cansada de estar aqui, reprimida por todos os meus medos infantis", é o verso de abertura de uma de suas canções mais famosas). Estavam lá para pagar promessa, e nada mais louvável, para a patota goth paulistana, do que 52 dias passados em meio ao cheiro de urina de uma calçada na Barra Funda, à espera da endeusada líder do grupo, Amy Lee.

À frente do Evanescence, a cantora de olhos vampirescos comanda uma impressionante onda de catarse com seu vozeirão. Mulheres desmaiam em cima do alambrado. São escoltadas para fora. E pelo menos uma saiu de maca, semiconsciente, na noite de domingo. Não importa que o som seja datado desde os primórdios da banda.

O repertório do Evanescence, que chegou à fama na primeira metade da década passada, com o disco Fallen, responsável por 17 milhões de cópias vendidas, é um pastiche de tudo o que foi rock e mainstream nos últimos 20 anos. Há ecos de Pearl Jam, riffs de Korn, baladas emotivas que misturam piano e guitarras (vide November Rain) e mais. Esta última modalidade, mais conhecida como a "power ballad", é a especialidade de Amy Lee. A cantora tem formação de piano clássico e sua voz não é menos técnica. Amy a solta como se fosse uma Enya do heavy metal, sempre em busca do épico, para o delírio das multidões.

O Evanescence tem quase duas décadas de estrada, desde sua primeira formação, e sabe administrar a dinamite sonora para fazer um show sucinto e explosivo. Sob o altar gótico do Espaço das Américas, neste domingo, Lee retribuiu o sacrifício com tudo de si, do início, ao bis, com o hit, My Imortal.

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