Rito de passagem

O romance de formação do uruguaio Mario Benedetti

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO, FICCIONISTA , O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h10

VINICIUS JATOBÁ

A Borra do Café, do uruguaio Mario Benedetti, é um livro obrigatório, sobretudo para escritores. Pode-se ver facilmente Benedetti no protagonista da trama, Claudio - o fato de o autor ter dotado seu personagem de talento para o desenho é um disfarce frágil. Mas o que motiva Claudio a abraçar o desenho é que se mostra revelador: a necessidade que ele tem de se confortar com algo que permaneça, uma vez que vive em constante mudança.

O arco do protagonista é fabuloso, afável. As brincadeiras da infância de Claudio são vivazes - há o gosto de quem brincou muito nas ruas, a fauna de amigos, o sentido de fraternidade infantil. A família é enérgica: política, rumorosa, arfante; os avós e os pais do personagem são maiores que o mundo. A morte da mãe de Claudio inicia a peregrinação da família por diversos bairros de Montevidéu. E a descoberta do amor marca a segunda busca de Claudio: a da mulher perfeita, da mulher que o arrebate plenamente.

A Borra do Café é um exemplar romance de formação. O que o torna incomum é que Benedetti (1920-2009) traz para a ficção o seu olhar de poeta. Não que a linguagem seja exatamente lírica. Há, porém, uma natureza encantatória e cúmplice em seu retrato do amadurecimento de Claudio, duro e intenso.

O único senão desse livro extraordinário é ser desnecessariamente breve.

A BORRA DO CAFÉ

Autor: Mario Benedetti

Tradução: Joana

Angélica D'Ávila Melo

Editora: Alfaguara

(192 págs., R$ 32,90)

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