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Rimas poderosas

Luis Fernando Verissimo

Uma das poucas certezas que se tem sobre a vida de William Shakespeare é a data da sua morte: 23 de abril de 1616. Todos os anos são publicados no mundo mais de mil livros, ensaios, exegeses e ficções sobre Shakespeare, sem contar suas peças que continuam a ser encenadas e as adaptações para o cinema que continuam a ser feitas, mas contando as especulações sobre os detalhes obscuros da sua vida, como teorias sobre sua sexualidade (os sonetos teriam sido, todos, escritos para homens) sua vida conjugal (ele se vingara da infidelidade da mulher, deixando-lhe como herança apenas a segunda melhor cama da casa) e seu trabalho (ele não seria o verdadeiro autor das peças, ele roubara a maioria das suas ideias, ele nem existira). Dá para imaginar o que será publicado agora, nos 400 anos da sua morte. A indústria shakespeariana estará a todo vapor em 2016.

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Nenhum outro autor influenciou e continua a influenciar a literatura ocidental como Shakespeare. Tão fascinante quanto a sua obra é esta influência sobre as obras de outros. Freud era um leitor obsessivo de Shakespeare e chegou a dizer que Hamlet era o pai da psicanálise. James Joyce, no seu Ulysses, cita Shakespeare do começo ao fim, e, principalmente, no episódio 9, que descreve um encontro de intelectuais na Biblioteca Nacional de Dublin no qual Stephen Dedalus, um dos personagens polares do romance de Joyce (o outro polo é Leopold Bloom, cujas andanças por Dublin no dia 16 de junho de 1904, o famoso “Bloomsday”, formam o livro), expõe suas teorias sobre Hamlet e o fantasma do pai de Hamlet (que o próprio Shakespeare teria interpretado numa produção da peça em Londres).

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James Joyce não tinha ilusões sobre a receptividade do seu livro complicado, publicado em 1922. No dia 16 de junho de 1924, escreveu no seu diário (segundo Richard Elmann, seu melhor biografo): “Hoje é 16 de junho 20 anos depois. Alguém se lembrará desta data?”. Em Ulysses, Stephen Dedalus se faz a mesma pergunta, ao rascunhar linhas para um novo poema. “Quem, algum dia, em algum lugar, lerá estas palavras?” Stephen também se lembra que, antes de viajar para Paris, deu instruções para que, no caso da sua morte, suas epifanias deveriam ser depositadas em todas as livrarias mais importantes do mundo, “inclusive a de Alexandria”. Alguém, certamente, as leria lá, depois de alguns milhares de anos. (Mas certamente não na livraria de Alexandria, que se incendiara séculos antes). Joyce deu as mesmas instruções quando se mudou para Paris, em 1902. Tanto Joyce quanto Stephen, o criador e o personagem, poderiam se consolar com uma frase de Shakespeare: “Nem o mármore, nem os dourados monumentos a príncipes, durarão mais do que estas rimas poderosas”.

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As rimas poderosas inspiraram muitos outros escritores, nenhum mais do que Vladimir Nabokov, cuja obra está cheia de referências explícitas e veladas a Shakespeare. Várias vezes, na sua literatura, Nabokov evoca um personagem shakespeariano num dos seus próprios personagens e, em certos casos, ele mesmo se identifica com uma invenção do poeta. Como Próspero, o mago que comanda toda a vida à sua volta na ilha mágica de A Tempestade, usando todos os poderes de autor, todos os sortilégios da arte, que Nabokov gostava de ostentar. 

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A arte de Shakespeare também continua viva no trabalho de críticos como Harold Bloom e Stephen Greenblatt, que transformaram o estudo do bardo quase que num gênero literário à parte. As rimas poderosas são irresistíveis. 

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