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Retrospectiva 2011: Literatura

Os livros mais vendidos, os prêmios e os eventos que marcaram durante o ano

Juliane Freitas - estadão.com.br,

22 Dezembro 2011 | 21h00

Milhares de livros foram lançados em 2011 no Brasil. Dentre os novos títulose outros tantos a que se somaram nas prateleiras das bibliotecas e livrarias (esta última responsável por cerca de 40% da comercialização de livros em 2010, segundo a CBL), uma variedade de assuntos marcou o top 10 dos best-sellers de 2011.

 

No topo da lista, Ágape, de Padre Marcelo Rossi, ficou à frente do segundo colocado do ranking por milhares de cópias. Foram cerca de 500 mil, contra 98 mil de A Cabana, de William P. Young, de acordo com o site especializado Publish News.

 

Os que vêm em seguida são, na ordem de classificação, Querido John, de Nicholas Sparks, A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin,  Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, mais um de Nicholas Sparks, Diário de Uma Paixão, Steve Jobs, de Walter Isaacson,  o ganhador do Jabuti 1822, de Laurentino Gomes, Água para Elefantes, de Sara Gruen , e o clássico O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry.

 

Uma curiosidade: três desses livros inspiraram filmes e um deles uma série de tevê, Game of Thrones, no ar no Brasil pelo canal pago HBO.

 

Não é possível, no entanto, resumir como foi o ano na literatura com base apenas nas vendas. É preciso levar em consideração os grandes eventos do setor, que sempre trazem novidades e,  mais interessante, discutem o tema, e, é claro,  os prêmios.

 

FEIRAS E EVENTOS

 

A Fliporto, Festa Literária de Pernambuco, traçou em Olinda diálogos sobre o ocidente e o oriente, sob curadoria de Antonio Campos. Passaram por lá em novembro mais de 30 autores de 14 países, como o indiano Deepak Chopra, o paquistanês Tariq Ali, além do português Gonçalo M. Tavares e dos brasileiros Fernando Morais e Leandro Narloch, que juntos travaram discussão acalorada sobre política na América-Latina, sobretudo em Cuba.

 

Na FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, realizada na cidade histórica do litoral sul fluminense em julho, o ator e diretor de teatro Zé Celso foi destaque com sua Macumba Antropófaga. A oitava edição do evento homenageou o escritor Oswald de Andrade e teve participação de Antonio Candido, Valter Hugo mãe, James Ellroy, João Ubaldo Ribeiro, David Byrne, entre outros, divididos em eventos centrais e paralelos pela cidade.  Os melhores momentos estão no blog da FLIP.

 

 

Na bienail do Rio, oportunidades importantes para quem queria divulgar suas obras e conhecer ídolos da literatura internacional. O Rio recebeu a popular escritora norte-americana Anne Rice, de Entrevista com o Vampiro, e para os teens, a cantora e atriz Hillary Duff.  Popular a feira reuniu cerca de 700 mil pessoas.

 

PRÊMIOS

 

Premiações ao redor do mundo consagraram e homenagearam grandes os grandes trabalhos do ano. O estadão.com.br selecionou trechos de algumas obras para apresentar os vencedores de 2011.

 

Nobel de Literatura - Thomas Tranströmer

 

Desconhecido no Brasil, o autor só tem um poema publicado na língua portuguesa, parte de uma coletânea de poesia sueca.

Os fios elétricos

estendidos por onde o frio reina

Ao norte de toda música

O sol branco

treina correndo solitário para

a montanha azul da morte

Temos que viver

com a relva pequena

e o riso dos porões

 

 

 

 

Prêmio Portugal Telecom

Rubens Figueiredo foi o vencedor da premiação que celebra títulos em língua portuguesa publicados no Brasil. O autor também venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, ambos com a obra Passageiro do Fim do Dia. Veja trecho:

 

Não havia nada entre o sol e as cabeças de todos ali, a não ser a parte mais alta do poste de concreto e os fios bambos de eletricidade ou de telefone, que lá em cima irradiavam para os dois lados numa simetria de costelas. A sombra da fila, estendida quase ao máximo sobre a calçada, era a única sombra. A demora do ônibus, o bafo de urina e de lixo, a calçada feita de buracos e poças, o asfalto ardente com borrões azuis de óleo, quase a ponto de fumegar. Pedro já estava até habituado. Não são os mimados, mas sim os adaptados que vão sobreviver.

Pensando bem, não era tanto uma questão de habito nem de mimos. Acontece que toda hora é hora de avançar na escala evolutiva, subir mais um degrau. É mesmo impossível ficar parado e, qualquer que seja a direção em que as pernas começam a andar, o chão logo toma a forma de uma escada. Além do mais, é preciso reconhecer: sem mal-estar, sem adversidade, sem um castigo sequer, como se pode esperar que haja alguma adaptação?

 

Prêmio São Paulo de Literatura

 

O título de melhor livro foi para o escritor Rubens Figueiredo, como dito acima, já o prêmio de Melhor Autor Estreante foi para Marcelo Ferroni, com Método Prático de Guerrilha.

 

O agente de codinome Mercy e um homem prevenido. Nesse 5 de janeiro nublado e úmido, depois de um café da manhã frugal, porque o hotel El Incaico, no centro de La Paz, não oferece nada além de chá de coca, broas de milho e um queijo muito forte da região, ele atravessa o lobby de pasta na mão, acena para um táxi como se fosse a um encontro urgente (está na Bolívia, afinal, a negócios), mas desce a alguns quarteirões dali, onde, a seguir, toma um ônibus ate uma área residencial. Debaixo de uma garoa comum nessa época do ano, planta-se em frente ao numero 232 da rua Juan Jose Perez, um casarão depredado de dois andares, cercado por um muro verde-musgo, portãozinho de ferro que deixa ver alguns vasos no pequeno pátio. Ja conhece o local, esteve ali outras vezes: e uma pensão para moças, sabe que uma delas se chama Laura Gutierrez Bauer. E quem procura; uma argentina de origem alemã que mora há cerca de dois anos na Bolívia. Tira do bolso do paletó uma foto 3x4 em branco e preto, onde se vê um rosto de mulher. Abriga-se sob um telhado, do outro lado da rua, espera que ela apareça. Olha diversas vezes o relógio de pulso, a fotografia, e sua atitude pode parecer suspeita a um pedestre mais atento. Ela finalmente abre o portão às 9h30. Usa uma bolsa vermelha de couro, casaco de chuva cinza escuro que esconde suas formas robustas; Mercy vê as canelas grossas, brancas, em sapatos fechados. Usa um lenço estampado no cabelo e desce a rua com passos rápidos, que forçam o agente a acelerar a marcha, sem no entanto se aproximar muito.

Prêmio Jabuti

 

Ferreira Gullar foi o vencedor na categoria ficção com o livro de poemas Em Alguma Parte Alguma.

Fica o Não Dito por Dito

o poema

antes de escrito

não é em mim

mais que um aflito

silêncio

ante a página em branco

ou melhor

um rumor

branco

ou um grito

que estanco

já que

o poeta

que grita

erra

e como se sabe

bom poeta (ou cabrito)

não berra

 

Laurentino Gomes ganhou o prêmio da 53ª edição do Prêmio Jabuti com o Best-seller 1822.

No ano de sua independência, o Brasil tinha, de fato, tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos assombrava a minoria branca. O analfabetismo era geral. De cada dez pessoas, só uma sabia ler e escrever. Os ricos eram poucos e, com raras exceções, ignorantes. O isolamento e as rivalidades entre as províncias prenunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na divisão do território, a exemplo do que já ocorria nas vizinhas colônias espanholas. Para piorar a situação, ao voltar a Portugal, em 1821 - depois de 13 anos de permanência no Rio de Janeiro -, o rei D. João VI havia raspado os cofres nacionais. O novo país nascia falido. Faltavam dinheiro, soldados, navios, armas e munição para sustentar a guerra contra os portugueses, que se prenunciava longa e sangrenta. As perspectivas de fracasso, portanto, pareciam bem maiores do que as de sucesso.

 

Este livro procura explicar como o Brasil conseguiu manter a integridade do seu território e se firmar como nação independente por uma notável combinação de sorte, acaso, improvisação, e também de sabedoria de algumas lideranças incumbidas de conduzir os destinos do país naquele momento de grandes sonhos e perigos.

Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon

 

Na sétima edição da premiação para autores de romances em língua portuguesa, quem venceu foi João Almino, com Cidade Livre. O escritor recebeu a quantia de R$ 150 mil.

 

 

Não tenho a presunção de saber tudo o que aconteceu naqueles tempos, posso ter errado, escrito de mais ou de menos, vocês sabem que memórias e pesquisas são falhas e incompletas, melhor então confessar já de cara que muitos fatos esqueci e, dos que me lembro, nem sempre me lembro com certeza ou precisão, por isso este é um texto para ser modificado pelos leitores, como se eu tivesse criado uma wikipédia desta história, com apenas as regras de que nas minhas memórias, de papai e de tia Francisca somente eu posso mexer, e o resto - a descrição dos fatos que nos dão a impressão de sermos parte do espírito de um tempo -, vocês leitores do blog podem corrigir à vontade, e, se tiverem algum caso a contar ou comentário a fazer, que não se intimidem.

Ao longo do processo, ainda acrescentei uma ou outra opinião pessoal e corrigi o que sabia a partir do que foi publicado sobre Brasília até este ano de 2010, acumulando assim uma dívida profunda para com Isaías P. Ferreira da Silva Junior, cuja obra analisa minuciosamente a flora e a fauna, os primeiros habitantes e acompanha os detalhes da construção, um trabalho que é ao mesmo tempo de historiador, antropólogo e sociólogo. Uma dívida ainda maior ele tem com muitos e muitos outros que, através de relatos históricos, análises sociológicas ou antropológicas, memórias, testemunhos, depoimentos em jornais, reportagens, crônicas, poemas, contos e até mesmo romances, procuraram desenhar um painel sobre a Cidade Livre, também conhecida como Núcleo Bandeirante, na época da construção de Brasília.

 

Prêmio Machado de Assis

 

Consagrado pelo conjunto de sua obra, o autor e historiador  Carlos Guilherme Mota conquistou o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Leia abaixo trecho de um de seus livros, Ideologia da Cultura Brasileira.

 

O roteiro ora apresentado procura indicar os momentos decisivos do processo de conhecimento histórico no Brasil, esboçando uma periodização plausível, apontando os temas predominantes em cada momento, bem como alguns traços metodológicos e os conteúdos ideológicos das principais produções. A análise da função social do historiador surgirá a cada passo, ora em termos de constatação (quando para tanto dispusermos de informações), ora em termos de problemas. Os problemas, aliás, não são simples, mesmo quando os focalizamos em termos mais gerais. Exemplo? Escrevendo sobre os marginalizados social e culturalmente, um lúcido crítico brasileiro, Roberto Schwarz, indicava em 1970 que a chamada "cultura brasileira" não chegaria a atingir, com regularidade e amplitude, 50 mil pessoas, num país de 90 milhões de habitantes. Não será difícil, a partir dessa referência, afirmar que a historiografia brasileira é altamente elitizante, sua elaboração ficando nas mãos de um segmento social muito restrito, servindo no mais das vezes para recompor a saga das oligarquias em crise, ou justificar a ação política da hora. O oficialismo esterilizou em não poucas oportunidades o trabalho intelectual, propiciando o surgimento de uma historiografia cortesã - que, diga-se de passagem, não foi privilégio do Brasil. Portugal, por exemplo, foi um dos países que mais alto pagou o preço da esterilização cultural, acompanhada do êxodo de cérebros para outros centros de livre investigação e crítica. Não se trata apenas de um exemplo; configura, antes, uma advertência.

Internacionalmente, aconteceram ainda os Prêmios Pulitzer, Cervantes, Camões, Man Booker Internacional, entre outros. Para saber mais, clique sobre as palavras destacadas.

MEMÓRIA

O ano também foi de perdas na literatura. Morreram os escritores Moacyr Scliar, Mário Chamie, George Whitman, Christa Wolf, Ernesto Sabato, Marcos Santarrita, Gonzalo Rojas, Reynaldo Jardim, João da Costa Falcão, Émile Zola.

 

EM TEMPO

 

Ana Maria Machado assumiu a presidência da Academia Brasileira de Letras no início de dezembro. Autora de mais de cem livros, é a segunda mulher a conquistar tal posto, depois de Nélida Piñon. A escritora foi eleita por unanimidade pelos membros da ABL e substituiu Marcos Vinícius Vilaça.

 

Dia de Drummond e de Clarice

 

Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector ganharam datas comemorativas neste ano. Os dois consagrados escritores brasileiros devem ser relembrados anualmente com programações especiais nas datas em que comemorariam seus aniversários. Drummond em 31 de outubro (faria 109 este ano), com o Dia D Drummond e Clarice, em 10 de dezembro (a escritora completaria 91 anos em 2011), com a Hora de Clarice, alusão a uma de suas principais obras, A Hora da Estrela.

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