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Retrato duplo de um homem sob ameaça

Salman Rushdie escreve a biografia de Joseph Anton, seu codinome nos anos em que fugiu de radicais islâmicos

MICHIKO KAKUTANI , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h12

Em 1989, o aiatolá Ruhollah Khomeini declarou que o romance Os Versos Satânicos de Salman Rushdie era ofensivo ao Islã e emitiu uma fatwa contra o autor, sentenciando-o à morte. Durante nove anos, Rushdie viveu sob a sombra do assassinato. Foi um pesadelo pavoroso que parecia sair de seus romances surrealistas e salientava os mesmos temas que vinha tratando havia anos em sua ficção: os custos emocionais do exílio; as consequências da globalização e do choque cultural entre Oriente e Ocidente; e a natureza cada vez mais fantasmagórica da vida contemporânea.

Agora, com Joseph Anton: Memórias, Rushdie escreveu um livro de memórias sobre esses anos escondidos e, após vários romances decepcionantes, nos lembra de seu dom fecundo para a linguagem e seu talento para explicar as complexidades psicológicas de família e identidade. É também um documento angustiante, profundamente sentido e revelador: um espelho autobiográfico das preocupações que animaram a obra de Rushdie ao longo de sua carreira, da colisão do privado com o político no mundo interconectado de hoje às fronteiras permeáveis entre vida e arte, realidade e imaginação.

Rushdie sugere que sua história foi uma escaramuça aberta na batalha contra o Islã radical e uma espécie de prólogo ao 11 de Setembro. Ele a compara à primeira ave que surge no filme Os Pássaros, de Hitchcock, um arauto da "praga de pássaros homicidas" que invadirão a cidadezinha da Califórnia nesse filme.

Noticiou-se recentemente que, na esteira da indignação muçulmana com um filme insultando o profeta Maomé, uma fundação religiosa no Irã renovou o apelo à morte de Rushdie e elevou o prêmio a US$ 3,3 milhões argumentando que se o autor tivesse sido morto anos atrás, outros insultos ao Islã não teriam ocorrido (o decreto original foi revogado pelo governo em 1998).

O título do novo livro de memórias de Rushdie provém do nome falso que ele adotou quando a polícia britânica lhe disse, em 1989, que ele precisava de um pseudônimo: o Joseph vem de Joseph Conrad, o Anton, de Anton Chekhov. Os agentes de proteção designados para ele pelo governo britânico logo deram de chamá-lo 'Joe', uma abreviação que ele diz que detestava.

O que Rushdie, que nasceu em Mumbai, na Índia, de uma família muçulmana, faz de maneira mais persuasiva nessas páginas é transmitir ao leitor um senso palpável de como foram os anos de fatwa: no começo, sua "necessidade constante de encontrar o próximo lugar para viver", mudando da casa de um amigo para a de outro, e depois aprendendo a viver numa casa alugada num espaço confinado com "quatro homens enormes armados".

Não só as necessidades bastante comuns passaram a requerer operações furtivas complexas, mas toda espontaneidade foi também rapidamente sugada de sua vida: ele tinha de programar coisas tão simples como uma caminhada; tinha de se esconder num banheiro trancado sempre que uma faxineira vinha limpar o local. Desnecessário dizer que essas circunstâncias cobraram um preço nas suas relações pessoais e paralisaram sua capacidade de escrever. O grupo de proteção de Rushdie ensinou-lhe o protocolo de como entrar corretamente num recinto; os perigos de sair de um edifício e chegar em segurança a um carro à espera; e a arte de "lavagem a seco" - isto é, usar vários truques de contravigilância para se assegurar de não estar sendo seguido.

Uma visita aos EUA para falar na Universidade Colúmbia em 1991 rapidamente se transformou num circo; significou voar para Washington num voo da Royal Air Force, tomar um avião privado para o Aeroporto Teterboro em New Jersey e ser recebido por um comboio de oito carros com batedores em motocicletas. Levado para Nova York numa limusine branca blindada, Rushdie foi instalado na suíte presidencial de um hotel onde "colchões com revestimento à prova de bala cobriam todas as janelas".

Para tornar sua vida mais suportável, a equipe de segurança de Rushdie às vezes violava as regras. Numa época em que agentes de escalão mais alto advertiram que ele devia evitar Londres, seus protetores o levaram a casas de amigos para ele se encontrar com seu filho caçula, Zafar: "Eles o levaram junto com Zafar a campos esportivos da polícia e formaram times de rúgbi improvisados para que ele pudesse correr com eles e passar a bola". Com o passar dos meses, Rushdie percebeu que um "racha" interno estava se agravando: "A divisão entre o que Rushdie precisava fazer e como Salman queria viver". Identidade e as metamorfoses que sofrem indivíduos divididos entre culturas diferentes e ambições conflitantes sempre foram preocupações centrais na ficção de Rushdie, e neste volume ele nos mostra como a fatwa o obrigou a acertar as contas com seu passado, sua ânsia de amor e seus pressupostos mais profundos sobre o mundo.

Salman Rushdie escreve sobre seu isolamento e seus "humores beckettianos", sentindo-se como Didi e Gogo (de Esperando Godot), "fazendo jogos contra o desespero", ou seu oposto, "esperando pelo que achava que nunca viria". Ele escreve sobre a amargura que sentiu em momentos mais sombrios, pensando que seu maior problema "era que ele não estava morto": "Se estivesse morto, ninguém na Inglaterra teria de especular sobre o custo de sua segurança e se ele merecia ou não esse tratamento especial por tanto tempo".

Perto do começo, Rushdie pensava que poderia simplesmente mostrar que Os Versos Satânicos era uma obra séria que poderia ser dignamente defendida, "e aí as pessoas - muçulmanas - mudariam suas atitudes a respeito da obra e dele. Em outras palavras, ele queria ser popular. O menino impopular do internato queria ser capaz de dizer: 'Ei, vocês aí, vocês cometeram um erro sobre o meu livro, e sobre mim. Ele não é um livro diabólico, e eu sou uma boa pessoa. Leiam este ensaio e verão'". Gradualmente, porém, ele veio a perceber que "a violência e ameaça da resposta" a seu romance "era um ato terrorista que precisava ser enfrentado", e que ele "queria que os líderes mundiais defendessem seu direito de ser um encrenqueiro". Ele percebeu que estava lutando pela "liberdade de expressão, a liberdade da imaginação, a liberdade do medo, e a bela e ancestral arte" de contar histórias "da qual ele tinha o privilégio de ser um praticante". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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