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Retrato do Brasil poético

Uma antologia recém-publicada na França reúne mais de cem brasileiros, ao longo de 1.500 páginas, num largo painel do País, que vai do século 16 ao 20 sublinhando as sutis afinidades entre os autores

Gilles Lapouge, Correspondente,

22 Fevereiro 2013 | 22h00

PARIS - Les éditions Chandeigne são ousadas. Elas publicaram uma obra de 1.500 páginas, La Poésie du Brésil - Anthologie du XVIe au XXe Siècle, que apresenta as obras de 134 autores, desde os mitos ameríndios aos poetas concretistas do século 20. A tipografia é elegante e a programação visual, cuidadosa. Todos os textos são apresentados em versão bilíngue. Max de Carvalho, que organizou este monumento, traduziu os poemas para o francês com Magali de Carvalho e François Beauchamp. A poesia de um país não tem começo ou então seria preciso perscrutar os rabiscos no fundo das cavernas do período pré-histórico ou o vento das savanas. Para o Brasil, recuperar os primórdios de sua literatura é uma missão ainda mais inviável, porque os índios que habitavam as selvas antes da chegada dos portugueses não tinham escrita.

Max de Carvalho escolheu, no entanto, nos fazer ouvir, no início de sua antologia, os ecos das poesias índias. Sob o belo título Les Immémoriaux (Os Imemoriais), ele reagrupa lendas submersas ou cantos recolhidos entre xamãs pelos etnólogos. Alguns objetarão que os primeiros poetas do Brasil desprezavam a palavra indígena como um peixe despreza uma maçã e que eles eram mais influenciados pelas canções de gesta da Europa do que pelas tribulações do pássaro amarelo ou do grande peixe amazônico.

Isso não é absolutamente exato. Entre os primeiros poetas portugueses, encontram-se homens, jesuítas, sobretudo - por exemplo, o apóstolo do Brasil, o grande José de Anchieta (1534-1597) -, que falavam o guarani. Anchieta é conhecido pelos sermões furiosos equivalentes aos de Bossuet no século seguinte. Ele também escrevia poemas poderosos. Um dia, na condição de refém voluntário dos índios tamoios, ele escreveu na areia de uma praia, com a ponta de seu cajado, um poema de 6 mil versos, os quais decorou e posteriormente transcreveu. Alguns consideram essas caligrafias de areia como o primeiro poema do Brasil.

Começo

Os portugueses desembarcaram em abril de 1500. Eles ficaram deslumbrados. Não acreditando no tema do Eldorado redescoberto (obsessão dos espanhóis, que eram pirados, mas não dos portugueses, que eram comerciantes), os marinheiros de Lisboa ficaram encantados com a beleza, o insólito, a riqueza, a graça e as curiosidades da natureza. Carvalho publicou, à margem de sua antologia, algumas linhas escritas em 1.º de maio de 1500 por Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota portuguesa que se encarregou de apresentar ao rei de Portugal, Manuel, o Venturoso, os habitantes do país infinito que os portugueses acabavam de, sem o saber, enfiar em sua bolsa: "Eis como eles são: a pele acobreada tirando para o vermelho, rostos belos, narizes belos e benfeitos. Eles estão nus sem nada para se cobrir, eles não se preocupam minimamente de esconder ou mostrar suas partes vergonhosas; eles têm a esse respeito a mesma inocência que têm de mostrar seu rosto".

A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Manuel, que infelizmente não foi reproduzida na íntegra no livro, apesar de ser muito bela, prossegue insistindo na opulência e no fausto do novo país, sua exuberância, seus animais, suas árvores, seus barulhos e suas cores profusas que iluminarão a poesia brasileira até nossos dias. "Celebração de uma desmesura ritmada pelo esplendor das paisagens", comenta Carvalho, "catálogos maravilhados exaltando o sabor do mundo por meio dessas descrições de uma flora e de uma fauna muitas vezes desconhecidas, das topografias escandidas de palavras indígenas; afirmação muito cedo de uma superioridade natural sobre o Velho Continente, inaugurando uma tendências mais tarde designada pelo nome de ufanismo, que o romantismo do século 19 e depois as vanguardas do século 20 teorizarão de várias maneiras".

A poesia brasileira adquire, assim, um começo fulgurante: repousando sobre o pedestal imenso e ausente das lendas indígenas, galvanizada pelas belezas sem fim do novo país, praticada prontamente por atletas da linguagem, como o padre Anchieta, a palavra brasileira pôde desabrochar. As fadas do Parnaso se debruçaram sobre o seu berço. Estava tudo pronto para que a descoberta do inverossímil continente desse origem a linguagens inauditas e sons jamais ouvidos.

No entanto, um outro perigo rondava a poesia brasileira. Ela mal se fez conhecer porque os reis de Portugal, pouco inclinados a gastar seus recursos nesse grande país selvagem, preferiram conceder seus tostões à Índia, que era culta, que havia inventado o zero e o jogo de xadrez, e que estava cheia de marajás. Se, por inadvertência, a Corte de Lisboa lançava um olhar sobre a Bahia ou São Luís do Maranhão, era com enfado e quase desgosto, para extrair dali alguns benefícios e para impedir que o "país da brasa" se dotasse de indústrias rivais às de Portugal.

Desenvolturas

Eis porque o Brasil colonial não possuía nem indústrias nem imprensa. Tudo para Lisboa era a palavra de ordem! E sem imprensa, como imprimir livros? E como exprimir os estados de alma, os desejos, os langores, os sonhos, sem poder publicar coletâneas de poemas?

Para que o Brasil produzisse, enfim, jornais e livros, foi preciso esperar o início do século 19. Em 1807, o general francês Junot acampou diante de Lisboa. O rei, sua corte, seus camareiros, suas condessas e seus lacaios correram para os navios e fugiram para se instalar no Rio. Foi quando a imprensa passou a existir no Brasil.

Os letrados e os eruditos do Brasil se lançaram então à caça ao tesouro. Eles vasculharam os conventos, as residências privadas, as academias locais, os cadernos escolares. A poesia brasileira, que era até então manuscrita (com exceção das coletâneas escritas no Brasil, mas editadas em Lisboa, como A Prosopopeia, de Bento Teixeira), sai da sombra e é, com frequência, magnífica. Sua quantidade é imensa. Trata-se de uma poesia sobrevivente, salva da poeira dos escritórios ou da cinza das bibliotecas patrícias.

Max de Carvalho vasculhou esses fundos enormes para edificar seu monumento. Ele põe um pouco de ordem nessa confusão de textos, mas discretamente. Deixa ao leitor a liberdade de fazer o que quiser. Ele apresenta os autores "respeitando a ordem dada pelos tempos históricos e as correntes que neles se desenvolvem", mas evita as "hesitantes cronologias que se apoiam nas datas de nascimento ou de morte dos poetas". Prefere operar entre os poetas relações fundadas sobre afinidades mais sutis.

Agradam-me essas desenvolturas refletidas. Nada teria sido mais detestável do que uma espécie de Lagard et Michard (antigo manual do ensino secundário francês) com recortes, quadros sinópticos, coerências, sucessão de escolas literárias e verdades eternas. Carvalho é mais poeta que professor. Ele ama os textos. Ele nos oferece uma braçada de versos, de prosopopeias, de cantos de todas as cores e todos os ritmos, da qual cada leitor pode compor o buquê de sua preferência.

Ele evita nos encaminhar pelos labirintos das escolas literárias que são mais emaranhados que uma floresta da Amazônia. Contenta-se em citar, em suas notas, o nome de algumas dessas escolas. Seu enunciado é um charme: os Bucólicos e os Arcádicos, a Plêiade ultramarina e a Academia dos Esquecidos, os Jardineiros do Ideal, os Caboclistas, os Raros, os Nativistas, os Órficos, os Penumbristas, os Ufanistas ou os Antropófagos, os Condoreiros...

A discrição de Carvalho tem alguns inconvenientes. Alguns dirão que ele abandona seus leitores. O aparato crítico de sua obra é leve. As notas ocupam meras 17 páginas, número irrisório para uma obra de 1.500 páginas que apresenta 134 escritores desconhecidos do público francês. Em tal circunstância, um volume da Plêiade teria acrescentado pelo menos três ou quatro mil páginas de erudição.

No fim do volume foram acrescentadas notas sobre cada um dos autores integrantes da antologia. Também ali Max de Carvalho não nos sobrecarrega. Eles nos deixa com nossa fome. Faz o mínimo. Por exemplo, tentei me documentar sobre um dos movimentos literários mais estrondosos do século 20, o movimento conhecido como antropofágico. Alguns detalhes são fornecidos aqui e ali, mas é preciso pescá-los ao sabor das breves notas consagradas às grandes figuras do movimento de 1922: Mário de Andrade, Oswald de Andrade...

Descobertas

Reencontrei com prazer alguns dos maiores escritores brasileiros, Drummond de Andrade e Gonçalves Dias, Augusto Frederico Schmidt, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira ou Haroldo de Campos, o teórico do vanguardismo radical. Notei também, com alegria, a presença da fascinante Hilda Hilst, pornográfica e irreverente, dividida entre Deus e o erotismo, e que registrava a voz dos mortos.

Descobri figuras que desconhecia e que são grandes. Entre outras, Gregório de Matos (1633-1696), que levava uma vida dissoluta. Grosseiro e obsceno, intransigente, seus poemas não poupavam ninguém. Ele atacava sobretudo os padres, os notáveis e os poderosos. Os índios, os mestiços e os negros para ele não valiam grande coisa, tampouco. Os brasileiros o chamaram de "Boca do Inferno". O Santo Ofício ficou de olho nele e o deportou para Angola, de onde ele retornou para morrer no Brasil.

Um de seus poemas ganhou a seguinte versão em francês: Description de la Ville de Sergipe - "Trois douzaines de taudis vaguement colmatés / Six ou sept culs-de-sac qu’envahit l’herbe haute / Quinze soldats en guenilles, les chaussures trouées, / Et sur la place en tout, douze cochons bien dodus. // Avec ça, deux couvents, six moines et trois lettrés / Le juge moustachu, mais qui n’a pas d’oreilles, / Sous les verrous trois prisonniers rongés de poux, / Deux huissiers de justice qui mangent affamés. // Les dames sont chaussées d’escarpins de bayette / A semelle de bois comme les socques de moine / Elles vont en robe d’indienne et ceintures à volants // Il y a les flageolets qui donnent des flatulences, / Il y a du riz et puis du pain rassis, / Vous l’aurez deviné, c’est Sergipe del Rey". (Em português: Descrição da Cidade de Sergipe - "Três dúzias de casebres remendados, / Seis becos, de mentrastos entupidos, / Quinze soldados, rotos e despidos, / Doze porcos na praça bem criados. // Dois conventos, seis frades, três letrados, / Um juiz, com bigodes, sem ouvidos, / Três presos de piolhos carcomidos, / Por comer dois meirinhos esfaimados. // As damas com sapatos de baeta, / Palmilha de tamanca como frade, / Saia de chita, cinta de raqueta. // O feijão, que só faz ventosidade / Farinha de pipoca, pão que greta, / De Sergipe d’El-Rei esta é a cidade.")

Se precisasse reter um nome desse suntuoso florilégio, eu citaria Rita Joana de Souza (1696-1718), que é celebrada como a primeira poeta brasileira. Teria existido, de fato, aquela a quem chamam "a flor que perfumou os jardins de Olinda" ou ainda "a jovem e cândida donzela inspirada", ou teria sido, como sugere Carvalho, a "flor ausente de todo buquê" de que fala Mallarmé? A antologia lhe consagra legitimamente espaço. Esse espaço é virgem, pois essa grande poeta imaginária ou real não deixou uma única linha./ TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

NOTA: ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE EM LA QUINZAINE LITTÉRAIRE

LA POÉSIE DU BRÉSIL - ANTHOLOGIE DU XVIe AU XXe SIÈCLE

Org.: Max de Carvalho

Tradução: Max de Carvalho, Magali de Carvalho e François Beauchamp

Editora: Chandeigne

Importado, 1.512 págs., R$ 151,90)

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