Divulgação
Divulgação

Renascença na lente de Rossellini

Em trilogia, o cineasta italiano revela bastidores da Florença do século 15

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2012 | 08h24

É reconfortante a sensação de assistir ao DVD duplo de O Renascimento - A Era dos Médici, de Roberto Rossellini, lançamento da Versátil (R$ 39,90). Primeiro, sentimo-nos em presença de uma obra didática, feita para ensinar alguma coisa; e a impressão não é errada, pois era essa mesma a proposta de Rossellini. Revendo trechos, damo-nos conta de estarmos em presença de grande cinema, embora a trilogia tenha sido feita para a TV. Por fim, voltamos mais uma vez a ouvir, com fascínio crescente, o que têm a dizer, a nós pós-modernos, homens como Cosimo di Médici (1389- 1464) e Leon Battista Alberti (1404-1472), personagens centrais dos três filmes que totalizam 255 minutos.

Didata, mas de um didatismo muito especial, Rossellini nos convida ao mergulho nesse período que é, nada menos, o berço do capitalismo que viria a florescer (se o termo cabe) mais tarde, na Revolução Industrial. Seu epicentro: Florença do século 15, na qual os Médici se tornam imensamente ricos ao, na prática, inventarem o sistema bancário como o conhecemos hoje.

Havia em Florença toda uma cultura do empréstimo a juros, embora a usura fosse (em tese) proibida pela Igreja. Como Rossellini nos introduz nesse ambiente? Numa sequência genial, um florentino mostra a cidade a um inglês. Este se espanta ao ver várias casas ostentar um pano vermelho. "São pequenas lojas de crédito", explica o florentino. As pessoas que têm necessidade de empréstimo rápido, trazem um bem, o colocam em penhora, levam o dinheiro e, depois, o resgatam, devolvendo o que emprestaram e mais os juros. "Mas então a usura é permitida em Florença", confirma o inglês. Nada disso. Essas casas são multadas pela prática. Então por que ostentam os panos vermelhos, pelos quais são facilmente identificadas pelos que buscam dinheiro? "O pano significa que pagaram a multa à cidade", explica o anfitrião. Jeitinho florentino.

Durante boa parte do tempo assistimos a manobras políticas de bastidores. Luta pelo poder, transformada numa espécie de arte - não por acaso Maquiavel nasce, age e escreve em Florença. Ao aumentar seu poder através de uma rede bancária estendida pela Europa, Cosimo ganha também inimigos, que tramam sua morte. Acusado de tramar um golpe e condenado, consegue comutar (à custa de dinheiro) sua pena em exílio. Mas logo está de volta, apesar da pena prever 10 anos fora de sua cidade. A justiça é um joguete de interesses econômicos e políticos, e Cosimo detém os cordões que manejam essas marionetes.

Ao mesmo tempo, era um intelectual e protetor das artes. Formou bibliotecas, construiu palácios, financiou pintores, arquitetos e escultores. Cosimo é um motor financeiro da revolução renascentista, na qual a arte se liberta aos poucos do conteúdo imposto pela Igreja e coloca o homem em seu centro. Torna-se uma forma de pensamento. E, entre esses pensadores, desponta Leon Batistta Alberti, personagem da última parte da trilogia.

Alberti era o protótipo do homem renascentista, para o qual não havia fronteiras entre a arte, a técnica, a ciência, a filosofia. Deixou três tratados basilares (pintura, arquitetura, escultura). Há uma sequência muito significativa em que Alberti e um amigo dialogam com uma freira diante de um afresco de Masaccio. A religiosa diz que não vê a grandiosidade do Cristo na pintura. Alberti diz que Masaccio se limitou a aplicar as leis da perspectiva às figuras retratadas. Apenas isso. A pintura era autônoma em relação à crença. Isso é uma revolução.

Ao retratar essa grande aventura do homem, Rossellini se despoja de qualquer efeito, "retornando a Lumière e a Meliès", como diz num dos extras o crítico Adriano Aprà, grande conhecedor da obra do cineasta. Ao reduzir ao mínimo sua arte, para ir ao essencial, Rossellini produz uma epifania, tanto estética como intelectual.

Mais conteúdo sobre:
cinema Roberto Rossellini

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.