Releitura inglesa

Em duas séries, o artista inglês, que não expõe no País desde 1996, trata do limite do olhar

MARIA HIRSZMAN , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2014 | 02h05

Quase 20 anos depois de sua primeira mostra no Brasil - uma destacada participação na 23.ª Bienal de São Paulo (1996) -, Gary Hume volta a mostrar seu trabalho no País, exibindo a de amanhã uma seleção de trabalhos inéditos na sede paulistana de sua galeria londrina, a White Cube (Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550, 4329-4474). Serão cerca de 20 obras, subdivididas basicamente em duas séries, ou problemas, como o artista gosta de referir-se às diversas pesquisas que desenvolve. "Gosto de me colocar uma questão e tentar resolvê-la", explica ele diante de telas e colagens semelhantes às que mostrará em São Paulo, em seu ateliê de Londres.

Apelidados de Leões e Unicórnios' (termos que, reunidos, compõem o título geral da exposição), esses conjuntos são bastante distintos, mas têm em comum o caráter ao mesmo tempo sutil e desestabilizador que caracterizam a produção do artista. São construções formais de cuidadoso apuro estético, que revelam na prática porque Hume é apontado muitas vezes como o mais bem-comportado dos jovens artistas britânicos (Young British Artists - YBA), como se tornou conhecida a geração a qual pertence e que estourou em termos de mercado e visibilidade nos anos 1990.

Distante do caráter polêmico dos trabalhos de seus colegas de geração, como Damien Hirst e Sarah Lucas, Hume propõe uma hábil investigação, na qual explora de forma silenciosa diferentes aspectos da construção plástica. Investiga os limites tênues entre figuração e abstração; brinca no limite entre a superfície plana e o volume espacial da forma; investiga as possibilidades das referências narrativas, pontos de vista e histórias que vai criando em meio ao processo; e combina composições cromáticas ousadas com claros esquemas compositivos.

Nos Leões, como apelidou as colagens feitas a partir de fotos de crianças desconhecidas que comprou há dois anos em Nova York, ele reelabora e subverte as imagens, intercalando as cenas familiares com formas geométricas em papel prateado e invertendo algumas cenas de cabeça para baixo: uma forma de compreender melhor a estrutura formal e fazer uma remissão irônica ao fato de as imagens chegarem invertidas ao nosso cérebro.

O artista calcula que os retratados nasceram como ele, em 1962 ou perto disso, estabelecendo assim uma certa identidade entre o artista e os modelos. Imagina também que têm por volta de sete anos nas fotos, idade em que a criança se vê pela primeira vez como ser autônomo, separado da mãe. Suas interferências realçam ainda, numa imagem já fraturada por meio do recorte e da inserção de planos espelhados, uma nostalgia própria do registro fotográfico. Mas se recusa a ver isso como um comentário conceitual ou semiológico. "Não sou um artista conceitual, sou um artista visual e instintivo", afirma, acrescentando que não quer ser limitado pelas próprias regras ou as de qualquer modelo ou estilo. Hume se define não como um pintor, mas como um "fazedor de pinturas", uma forma de se libertar do peso da tradição. "Procuro fazer aquilo que, pelo menos ao que eu saiba, ainda não foi feito", acrescenta.

Nas telas, chamadas de Unicórnios, ou mesmo nas poucas esculturas que selecionou para a mostra brasileira (Bandeiras e Mães e Pais), Hume continua a demonstrar grande interesse pelo universo infantil, em sua maneira diferente e genuína de ver o mundo. "Minha pintura é muito simples", explica ele. Trabalhando normalmente com tinta brilhante sobre superfícies lisas como o alumínio, suas telas possuem algo de silencioso, de vazio.

Não por acaso a crítica identifica em sua obra um certo temperamento minimalista. Os tons, agora pastéis, variam conforme a luminosidade, e as referências visuais se combinam de forma mais ou menos explicita. São e não são unicórnios, esses seres míticos que tanto nos fascinam.

Gary Hume dividirá o espaço da galeria White Cube com Daniel de Paula, jovem artista brasileiro, que combina trabalhos em diferentes meios na exposição Objetos de Mobilidade, Ações de Permanência. Na seleção destaca-se a obra Crux, um gigantesco poste de luz atravessado no chão - como uma enorme árvore caída -num jogo de luz e sombra controlado por células fotossensíveis.

Numa série de trípticos, em que combina textos, imagens e referências documentais, ele propõe releituras poéticas de autores como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lucy Lippard.

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