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Relançado o mais difícil quebra-cabeça de Cortázar

Agencia Estado

17 Fevereiro 2001 | 13h 34

Julio Cortázar inicia assim o capítulo 62 de O Jogo da Amarelinha: "Em determinado momento, Morelli imaginou um livro que restou apenas em notas soltas." O Jogo da Amarelinha tem 155 capítulos. Os 56 primeiros estão agrupados num módulo chamado Do Lado de lá. Os restantes, no módulo De Outros Lados, são chamados de "capítulos prescindíveis". Cortázar propõe que O Jogo da Amarelinha seja lido destas formas: linearmente, do primeiro ao capítulo 56.°; ou se obedecendo a um curso informado ao fim de cada capítulo do segundo, vai-se para o 116.°; deste, volta-se ao terceiro; dali, vai-se para o 84.º e assim por diante. Na primeira parte, ou primeiro módulo, há uma história, à sua maneira, encadeada; a segunda parte é de reflexões, digressões, episódios marginais à história central. Combinadas, como instrui o autor, as duas partes integram-se, de maneira nunca óbvia. Em O Jogo da Amarelinha, as notas de certa forma soltas (no entanto, numeradas) da segunda parte iluminam, expandem a história narrada na primeira parte; esta, por seu turno, oferece às notas de certa forma soltas uma espécie de piso, apoio, uma âncora. Assim, O Jogo da Amarelinha, um livro de leitura extremamente complexa (o que não a torna menos deliciosa e instigante) oferece uma espécie de tabuleiro, de formato definido, para que o leitor monte o quebra-cabeça. Mas Cortázar quis escrever o livro imaginado por Morelli. E lançou, em 1968, o livro de notas soltas: 62 Modelo para Armar. É seu livro mais difícil. No Brasil, teve uma primeira edição, nos anos 70, pela Civilização Brasileira, que agora o relança (256 págs., R$ 26). Não há mais tabuleiro. Os limites são do leitor, não do escritor. No fim do capítulo 62 de O Jogo da Amarelinha, Cortázar já o advertia: "Se escrevesse este livro, os comportamentos standart (inclusive os mais insólitos, os da categoria de luxo) seriam inexplicáveis com o instrumental psicológico que temos em uso. Os atores pareceriam loucos ou totalmente idiotas. Não que se mostrassem incapazes dos challenge and response correntes (amor, ciúme, piedade, e assim sucessivamente), mas porque, neles, algo que o homo sapiens guarda no subliminar, abrir-se-ia penosamente um caminho, como se um terceiro olho pestanejasse penosamente debaixo do osso frontal." A menção ao "terceiro olho" vem marcada para que se busque a nota de pé de página: "Metáfora eleita deliberadamente para insinuar a direção apontada..."; a existência proposta de um comportamento "standart de luxo" interpõe o humor que é uma das marcas formidáveis do autor e faz prenunciar o fantástico (não o absurdo): eis o mundo visto de forma nova e original. Veja-se neste mundo. Luís Harrs chamou um estudo sobre a obra de Cortázar (sobre a fusão fantástico-realidade) de Bofetada Metafísica. A bofetada propõe-se assim, na primeira página de 62 Modelo para Armar: "´Eu queria um castelo sangrento´, dissera o comensal gordo." Juan está entrando no restaurante Polidor, em Paris. "Por que entrei no restaurante Polidor? Por que, visto que faço esse tipo de pergunta, comprei um livro que provavelmente não iria ler? (...) E já na seqüência de perguntas, por que, depois de entrar no restaurante Polidor, fui me sentar à mesa do fundo, defronte do espelho grande que duplicava precariamente a desbotada desolação da sala? E outro elo a situar: por que pedi uma garrafa de Sylvaner?" O castelo sangrento é só um erro de entendimento do argentino sentado num restaurante de Paris; as perguntas que Juan se faz são cotidianas, mas abrem portas para que se dê início a uma nova ordenação mais uma do mundo. Cortázar adverte, no prefácio: "Aos possíveis surpreendidos assinalo que no terreno em que se desenvolve esta narrativa, a transgressão deixa de o ser" e o cotidiano, o comum deixam de o ser. "O subtítulo ´Modelo para Armar´ poderia fazer crer que as diferentes partes da narrativa, separadas por espaços em branco, se apresentam como peças mutáveis. Se algumas o são, a armação a que se alude é de outra natureza, sensível já no nível da escrita, onde recorrências e deslocamentos procuram eliminar qualquer fixidez causal, mas sobretudo no nível do sentido, onde a abertura para um ajustamento é mais insistente e imperiosa." Cortázar exime-se da responsabidade de juntar as peças, como fizera no Jogo da Amarelinha. Cada um leia o livro que resolva ler, estabeleça sua montagem pessoal, enquanto Juan, Calac, Tell, Hélne, Célia, Nicole, Marrast, Polanco vão amplificando o leque de opções, misturando-se, na narrativa, como se misturam e recompõem-se as cidades e as imagens nos espelhos. Obra fascinante: um dos mais finos pratos já servidos pela literatura ao paladar prazer intelectual.

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