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Régua e compasso

O melhor argumento pela eleição de uma mulher à presidência dos Estados Unidos foi fornecido, na quinta passada, pelo homem com mais chances de impedir que isto aconteça. “Ele se referiu às minhas mãos,” rosnou Donald Trump para Marco Rubio, levantando as palmas abertas para a câmera. “E, se elas são pequenas, algo mais deve ser pequeno. Garanto a vocês que não há problema ali.”

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Lúcia Guimarães

07 Março 2016 | 03h00

Sim, caros leitores, ainda se recuperando de figuras nada presidenciais que sugerem a introdução de processos em orifícios impensáveis. O homem que pode ter o dedo no botão nuclear – e, com tanta baixaria, em São Paulo e Nova York, confirmo que me refiro estritamente ao arsenal militar norte-americano – o homem que pode começar uma guerra mundial está preocupado com os centímetros do seu arsenal. E achou boa ideia tranquilizar seus seguidores, provocando efeito inverso em todo o resto da população.

Uma discussão ovo e galinha irrompeu em fevereiro, quando duas proeminentes mulheres de uma certa idade criticaram as jovens que aderiram à candidatura de Bernie Sanders. A ex-Secretária de Estado Madeleine Albright disse que havia um lugar no inferno para mulheres que não se ajudam umas às outras. A lendária feminista Gloria Steinem pegou ainda mais pesado, sugerindo que as jovens iam atrás de Bernie porque “os garotos estão com ele.” Teve que se desculpar.

Mulheres de todas as idades e homens não absorvidos por suas medidas anatômicas debateram intensamente a questão: é importante votar em Hillary Clinton porque ela é mulher ou é importante votar nesta mulher porque ela é Hillary Clinton? Defensores do primeiro argumento apontam para um cenário lamentável na política norte-americana, onde mulheres representam apenas 14% dos ocupantes do atual Congresso, fora o detalhe de que lá se vão 227 anos de democracia sem uma só mulher na presidência.

A progressista e Sanderista atriz Susan Sarandon declarou: “Não voto com minha vagina.” Mas os que denunciam sexismo e pressão politicamente correta não raro são os que cobram de Hillary Clinton o que não cobrariam de Bernie Sanders. “Ela fala alto,” reclamam. Bernie pode gritar à vontade nos comícios.

A discussão colocou em relevo um racha de gerações que pegou Hillary de surpresa. E, como notória disciplinada que é, quando saíram os números de primeira derrota na primária de New Hampshire – 82% das mulheres com menos de 30 anos votaram em Bernie – Hillary atacou o problema de frente, se dirigindo às mulheres jovens que a rejeitam.

Um artigo recente de capa da revista New York, trata das mulheres solteiras que, pela primeira vez na história, são maioria entre as mulheres norte-americanas. É um bloco eleitoral poderoso, mal explorado por republicanos e democratas, que gosta da simplicidade da mensagem de Bernie – universidade grátis, benefícios trabalhistas, pacifismo.

A semana passada ilustrou a importância da presença da mulher no centro do poder. Um importante caso de aborto chegou à Suprema Corte, recém-desfalcada de um de seus nove juízes, com a morte do conservador Antonin Scalia. As três juízas atualmente na Corte assumiram o controle dos argumentos orais a favor da manutenção da legalização do aborto, no primeiro caso em que a presença de mulheres reequilibrou forças. Até 1981, quando Ronald Reagan nomeou Sandra Day O’Connor, não havia mulheres na Suprema Corte.

Mesmo se o preparo de Hillary Clinton contrasta com o lamentável campo republicano e suas discussões sobre a genitália, o fator mulher não pode ser negado como um compasso. Ainda que incompetência e despreparo não sejam monopólio de um sexo – pausa para os sofridos leitores suspirarem – é legítimo eleitores decidirem que chegou a hora de uma mulher ocupar a Casa Branca.

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