Reflexões sobre um Brasil em mudança

Ana Carolina promove debate sobreo País na ficção 'A Primeira Missa'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h07

Ana Carolina começou a desenvolver o projeto de A Primeira Missa logo que concluiu Amélia, em 2000. Foram 14 anos de gestação para o filme que estreia hoje. No caminho, e por absoluta falta de dinheiro, o projeto foi mudando - teve de mudar. Tomou um rumo que agora surpreende a própria autora. "Reivindicações que são muito atuais terminaram se colando à estrutura dramática. O filme ganhou um caráter de manifesto. O meu manifesto pau-brasil."

Amélia conta a história de três matutas do interior de Minas que vêm ao Rio para encontrar a irmã, camareira da lendária Sarah Bernhardt. As irmãs terminam se incorporando à trupe da diva francesa e aparecem como figurantes, fantasiadas de índias, na cena final. Ana Carolina fez, com Amélia, o oposto de Como Era Gostoso o Meu Francês. No clássico de Nelson Pereira dos Santos, os índios comem o francês. No longa de Ana Carolina, a francesa canibaliza as matutas.

Passado todo esse tempo, Ana Carolina continua pensando o Brasil. Ela não faz outra coisa, desde o primeiro longa, Getúlio Vargas - Trabalhadores do Brasil, há 40 anos. Depois de investigar o mito do pai, Ana Carolina fez sua trilogia feminista entre 1977 e 87 - Mar de Rosas, Das Tripas Coração, Sonho de Valsa. Depois de Amélia, fez somente o filme sobre Gregório de Matos. E agora A Primeira Missa. Ana Carolina pensa o Brasil porque, como diz, é a sua maneira de preservar a própria individualidade. "Sou o que o Brasil me obriga a ser." O caso de Primeira Missa é exemplar - o filme começou grande, muito grande.

"Tinha caravelas, montes de índios, a praia em que a Primeira Missa foi rezada", lembra a diretora. A falta de dinheiro levou-a a uma radical mudança de rumo. "Paradoxalmente, me senti muito livre para fazer o que era preciso. Não tinha dinheiro. Como havia mastigado aquele roteiro, não foi difícil me livrar de tudo o que não conseguiria colocar na tela. Sobraram as linhas de força, e eu pude filmar rapidamente." Foram apenas três semanas num estúdio da Vila Mariana, em São Paulo. Já que não tinha dinheiro para filmar na floresta, Ana Carolina trouxe a floresta até ela.

"Minha floresta foi construída numa área de 300 metros quadrados. Felizmente, tive um pintor francês, um gênio, que me deu os fundos de que precisava. E o cenógrafo Valdi Lopes entendeu o que queria. Pedi que ele fizesse as árvores com rodinhas porque precisava de um cenário móvel." O terceiro gênio de Primeira Missa foi um cúmplice de longa data de Ana Carolina, o diretor de fotografia Rodolfo Sanchez. "Ele me deu a beleza de luz do filme. Digam o que disserem, é um filme bonito." O elenco de atores brasileiros e portugueses foi formado na marra. "O Ramalho (o produtor Francisco Ramalho Jr.) me deu um ultimato. Ou eu escolhia o elenco, ou ele. Era coisa de começar em uma semana." Uma frase do diretor do filme dentro do filme - a dramatização da A Primeira Missa - é reveladora. "É preciso ser muito macho para levar esse filme até o fim." Ana Carolina, com sua beleza, foi.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.