Ravi Coltrane derruba resistências em disco recente

Filho de John Coltrane fala sobre ao Estado sobre sua trajetória profissional

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 03h47

Ravi Coltrane tinha apenas 2 anos quando seu pai, o lendário saxofonista John Coltrane (1926-1967), morreu. Segundo filho de John e Alice Coltrane, ele foi batizado com o nome de Ravi em homenagem a outro lendário personagem da música, o citarista Ravi Shankar (pai da cantora Norah Jones). Mas Ravi só se decidiu pelo jazz quando já estava perto dos 20 anos (tem 42 agora). Desde então, foi forjando pacientemente sua reputação, tocando tanto o saxofone quanto atuando como bandleader e compositor. Seu disco mais recente, In Flux (Savoy Jazz) recebeu elogios de todos os lados, derrubando as últimas resistências ao caçula do clã Coltrane. Ravi toca amanhã no Bourbon Street, em sua segunda passagem pelo Brasil. Chega com seu quarteto (Drew Gress, E.J. Strickland, Luis Perdomo), o mesmo que toca no disco. Coltrane falou ao Estado por telefone, na última quarta-feira. Ben Ratliff, no New York Times, escreveu que seu disco soa como soa a música de Nova York atual. O que acha disso? Há de fato um "som de Nova York" hoje em dia? Acho que há boa música em todo lugar. Nova York tem a peculiaridade de ser um lugar de encontro. Músicos de outras cidades, países, todo mundo de alguma forma se encontra em Nova York. Há uma certa sensibilidade aqui que se abre para a comunidade, que aceita uma amplidão de idéias, de gostos para a música. Isso ajuda a criar um blend. Mas não há um único som, existem vários. Você sabe, seu nome de família, Coltrane, é um nome sagrado para o mundo do jazz... Eu espero que seja sempre assim. Você ainda se incomoda quando o comparam ao seu pai? Mas não são coisas comparáveis. Não só eu, mas qualquer um que tentasse se comparar a John Coltrane certamente não seria bem-sucedido. O meu gol é ter conseguido ser eu mesmo. Só há um John Coltrane, assim como só uma Alice Coltrane. É claro que eu me aproveito do que eles me deixaram, as gravações do meu pai, as aulas da minha mãe. Foram meus professores, as pessoas mais importantes da minha vida. Mas nunca estive em competição com o que eles foram. Portanto, não há pressão. Como foi tocar com sua mãe no disco Translinear Light (Impulse Records, 2004), no qual ela voltou às performances, após anos ausente? Ela nunca esteve ausente da música. Sempre tocava, sempre fazia arranjos, era parte da vida dela. Mas eu considero uma grande honra ter podido tocar com ela. Minha mãe morreu em janeiro, então eu considero Translinear Light o disco mais importante da minha vida. Aprendi muito, quando eu terminei, estava na metade do meu disco, então posso afirmar que a energia do trabalho com ela transbordou para meu disco. Posso ver claramente o benefício que foi dividir o trabalho com ela. Como ela era como bandleader? Muito exigente, durona? Era uma pessoa completamente iluminada. O jeito que era, como mãe, também era como música. Sempre generosa, conectada. E gentil. Ela nunca dizia "não, não quero desse jeito". Ela dizia: "Você deveria tentar assim, desse outro jeito." Os críticos também o têm comparado a Joe Henderson, e às vezes até a Joe Lovano. (risos). Eu gostaria de dizer mais alguns nomes: Wayne Shorter, John Coltrane, Sonny Rollins. Se eu me lembro bem, é por causa deles que estou na música. Lovano é um grande amigo. Tenho respeito por todos esses músicos. Mas tenho minhas próprias idéias. Gosto de tocar e de improvisar do meu jeito. Tocar e excursionar com uma banda é uma das mais elevadas formas de comunicação. Com o tempo, o conhecimento mútuo, a música fica também mais natural, orgânica.

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