Raio de farmácia

Exausta, chego à fila do caixa como quem escapa de um apocalipse zumbi

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2017 | 02h00

Acho que ainda sou bastante jovem, mas já guardo no peito algumas boas dezenas de nostalgias. Dentre elas, destaco a memória de um tempo no qual havia paz... Nas farmácias.

Explico-me. Lembro de uma época, que findou nos últimos cinco anos, na qual nós podíamos entrar numa farmácia, passear pelas gôndolas, dirigir-nos ao balcão, pedir um medicamento, seguir para o caixa, pagar e ir embora. Mas esse tempo acabou.

Agora, uma ida à farmácia tornou-se um evento turbulento e tormentoso, sobretudo se você for uma pessoa simpática. A cortesia e o sorriso nos tornam alvos muito mais fáceis de conversas do tipo “a senhora pode me dar só um minutinho da sua atenção?”, bem como de vendedores empenhados e de suas promoções imperdíveis.

Entramos na farmácia e dois metros depois da porta alguém diz: “Boa tarde senhora, posso ajudar?”, e dizemos: “Não, muito obrigada”. E a pessoa replica: “Tudo bem, meu nome é Vanessa, se precisar de alguma coisa é só me chamar, ok?”. E nós falamos: “Ok, obrigada”. Era para acabar aí.

Mas não. Você encosta num tubo de desodorante e um colega da Vanessa brota do chão dizendo: “Se a senhora levar dois, o terceiro sai com 50% de desconto”. Sorrio. Digo “Ah, legal, bom saber”, embora eu saiba que nunca vou comprar três desodorantes de uma vez só. Eu só gosto de projetos a curto e médio prazo, três desodorantes são uma vida inteira. O Rafael, com seu uniforme da farmácia, olha-me com desprezo por eu abrir mão de uma oportunidade dessas.

Sigo para o balcão para pedir meu remédio da tireoide. Digo o nome e a dosagem. A colega da Vanessa e do Rafael me pergunta se eu conheço o genérico. Digo que conheço, mas a médica mandou tomar esse. Ela pergunta se eu tenho desconto do plano de saúde. Lembro que sim. Procuro a carteirinha. Ela pede meu CPF, eu dito, o sistema falha, dito de novo, ela erra, dito de novo, eu erro, dito de novo, pronto. A Viviane pergunta se eu não preciso de mais nada. Não obrigada. Eu que agradeço.

No caminho, paro para olhar um sabonete para o rosto. É a vez da Cibele. Estou cansada, deixo-a falar. Ela mostra outra marca MA-RA-VI-LHO-SA – como se eles não recebessem comissões ou coisas assim –, diz que será incrível para a minha pele. Eu digo OLHA QUE BACANA e ela diz e o TÔNICO? e eu QUE TÔNICO? e ela diz VOCÊ NÃO USA TÔNICO? digo que não, ela fica chocadíssima, me mostra 1, 2 ,7 tônicos. Mostra também um esfoliante facial, um demaquilante bifásico, uma água micelar, um BB Cream, um protetor FPS60 com cor em versão sérum, que combate os radicais livres e reduz os sinais de expressão, enquanto protege tonalizando a pele e evitando o brilho na zona T, ideal para peles como a minha, que são mistas e com leve tendência acneica, bem como muito importantes para peles jovens que ainda não apresentam rugas, mas cujas linhas já começam a ficar evidentes. Ótimo Cibele, muito obrigada.

Chego à fila do caixa como quem escapa de um apocalipse zumbi, no qual os zumbis usam jalecos brancos, sorriem e recebem um treinamento assustadoramente agressivo para nos vender tudo o que não queremos. Paro atrás da senhora de malha laranja e uma geladeira grita comigo através de um cartaz: GATORADE, DE 5,49 POR 4,99. Estou exausta.

Chego ao caixa. É o Rafael do desodorante. TEM O NOSSO CARTÃO? Opa, mas é claro, não sou nem louca de não ter. CPF. Ok. NÃO QUER APROVEITAR A PROMOÇÃO DO LISTERINE, LEVE UM DE 500ML E GANHE UM MINI? Não obrigada. QUER LEVAR NOSSA REVISTA CUJA RENDA É REVERTIDA PARA PESQUISAS DO CÂNCER? Tá bom, só quero sair daqui. E O DESODORANTE, VALE A PENA HEIN? Obrigada Rafael, hoje é só isso mesmo. OK. CPF NA NOTA? Opa. CPF. De novo. CPF. Obrigada. DE NADA, VOLTE SEMPRE.

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