Quina da mesa

Eram 9:42. Ela planejara sair às 9:30, e ainda faltavam-lhe os livros, o iogurte do meio da tarde e o par de brincos com as pedras pretas penduradas. Amaldiçoava a si mesma, por nunca conseguir cumprir seus horários. Já sabia que a essa hora não encontraria vaga na sombra, mas, ainda assim, acelerava.

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 05h00

Pronta para sair, viu no chão da sala um pedaço de bolacha que a pequena deixara cair na véspera, mas ela, segurando quatro copos, resolveu pegar na volta e não pegou na volta e então ia ter que pegar na sua já tão atrasada ida.

Abaixou acelerada, arremessando o tronco em direção ao resto de bolacha e foi, direta e sedenta, com a testa na quina da mesa. Na mesma velocidade com que desceu, caiu para o lado, perdendo os sentidos. A bolsa despencou do ombro, rolaram para fora o protetor de lábios, o umidificador nasal e a caneta prateada.

Abriu os olhos sem entender. Levou a mão à testa, que voltou suja do sangue que escorria do galo. Como qualquer mulher, não se assustou com o sangue. Não só pelo fato da vida habituá-las a ver sangue, mas pelo fato de que mulheres costumam estar habituadas à vida em si e, por isso, sabe-se que é preciso algo muito mais grave para assustá-las. Sentou-se no chão, desgostosa com aquela situação tão inconveniente.

Começou logo a culpar-se, especialidade feminina. Culpou-se pelo cálculo equivocado da distância da quina da mesa. Pelo gesto acelerado e pelo persistente atraso que acelerou o gesto. Por não ter recolhido a bolacha antes, por permitir que a filha comesse bolacha na sala. Em nenhum momento julgou-se vítima. O sangue escorria pela testa e já coloria os pelos da sobrancelha direita.

Levantou-se rápido demais, perdeu um pouco do equilíbrio, mas seguiu até a pia do banheiro. Aquilo estava mesmo feio. Lavou a testa, estancou o sangue com uma gaze e colocou 2 cubos de gelo no saquinho que transportou as cebolas na véspera. A cabeça latejava, um leve zumbido incomodava o ouvido. Recolheu a bolsa e seus pertences, pegou as chaves e desceu para a garagem.

O carro não pegou. Ela insistiu, suspirou. Preocupou-se. Pensou no transporte público que não chegava até o local do compromisso. Pensou no preço salgado de um táxi até lá. Decidiu chamar o táxi. Estavam em greve. Voltou chorando para casa e jogou-se no sofá sem entender tanto azar.

À sua maneira, a vida acaba por cuidar desse tipo de gente, que cuida de tudo e de todos, exceto deles mesmos.

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