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Questão de método

Roberto Damatta

Fique o leitor despreocupado porque essa crônica não é sobre o ensaio de Jean-Paul Sartre de idêntico título e que jaz mudo em minha mesa, embora pronto a derramar-se em cachoeira de argumentos, caso seja revisitado.

Para um inveterado leitor como eu - um homem que vive dos livros e para os livros, e uma alma salva por eles -, teria que entrar na disputa surda entre Sartre e os "dialéticos" mais ou menos marxistas, mais ou menos ignorantes ou impermeáveis às inovações da Linguística de Roman Jakobson, da Antropologia Simbólica, e, sobretudo, do "estruturalismo" de Lévi-Strauss, as quais descobriram uma surpreendente descentralização ou fragmentação do sujeito do pensamento que, a partir do Iluminismo, se centrava no indivíduo cartesiano e numa história linear, a qual culminaria com um mundo unificado seja pela compreensão, seja - como diz o último Sartre - pela violência e pela redenção revolucionária.

De qualquer modo, e eu já estou sendo muito pomposo e professoral para o jornal que apenas cita Platão, Hegel, Brecht, Freud, Hobbes, Hayek, Keynes e, obviamente, o múltiplo ou duplo Wittgenstein que, como garante a nossa santa ignorância nacional, é tão palpável quanto uma feijoada ou uma entrevista de celebridade; estou dizendo tudo isso para simplesmente contar um caso.

Uma trivialidade nacional que passa ao largo e, a olho nu, não tem a menor importância - um brasileirismo tipo comprar por duas vezes a mesma refinaria, pressionar tribunais superiores e pensar menos sobre programas e mais sobre a honra de como governar.

Aqui, a palavra método fala de um modo de resolver um problema. Da calibragem entre meios e fins. Usar um martelo para pregar um prego, ser comprometido com a coragem de dizer que não sabe. Esse é o meu método. Para outros, porém, o método tem a ver com o amplo espaço de uma vergonha que eles não sentem ou conheçam - essas coisas que são o cimento da "política".

*

Um menino de 9 anos testemunha o conserto de um relógio por um tio querido. Corria o ano de 1945 e o Toninho, ainda inocente de morte e sexo, acompanha fascinado o tio que prepara a mesa sagrada da sala de jantar para fazer algo de alta precisão: fixar o ponteiro dos segundos do relógio presenteado pelo irmão Roberval que, "bem de vida", como se dizia antigamente (hoje, estamos todos superbem de vida e de morte!), havia comprado um moderno relógio de pulso. O tio cobre a mesa com uma toalha branca e, como um neurocirurgião, prepara seus ultraprecisos instrumentos de trabalho: uma chave de fenda, uma faca de cozinha, um alicate e um martelo. Com a faca ele remove a tampa do relógio e com a pinça de fazer sobrancelhas de vovó, ele repõe o ponteiro dos segundos no seu lugar. Em seguida, Toninho assiste fascinado ao encaixe do vidro na estrutura e sorri com o sorriso vitorioso do tio relojoeiro. Mas, ao colocar a máquina que mede o invisível tempo de pé, o ponteiro consertado cai, obrigando à repetição de toda a operação. O tio repete tudo e novamente o ponteiro não fica no lugar. "Esse ponteiro desgraçado teima em não ficar no seu lugar!" Diz o tio ao Toninho, como se o ponteiro revelador dos segundos que só contam nos grandes momentos da vida, tivesse vontade. E repete a mesma operação, usando o mesmo método: faca e pinça. Mas o desgraçado do ponteiro cai novamente.

Toninho nota o suor na testa do tio cujas mãos tremem e explodem. Pois o calmo relojeiro, inteiramente transformado em monstro, toma o martelo e esmaga, desfazendo em pedaços, o que havia sido um marcador de tempo preciso e dourado.

"Questão de método!": ouviu do tio antes de saber que numa Paris desconhecida, existia um Jean-Paul Sartre que, um dia, iria perturbá-lo tanto quanto aquele teimoso ponteiro marcador de segundos.

*

Em 1979, Toninho, que é agora um professor de Ciência Política, e, em Portugal, estuda a originalidade do pensamento político português, acorda em dúvida. Não sabe se vai tomar café no bar da pensão ou se existe mesmo um pensamento político português original. Saber o que o café da manhã tem a ver com ideias políticas é semelhante ao elo entre o martelo e o ponteiro do relógio que não fica no lugar, mas foi assim que Toninho - ou Prof. Dr. Antonio como fazia questão de ser chamado - pediu o café.

- Bom dia! Disse ao dono do restaurante que estava agachado, tinha uma chave de fenda na mão esquerda e um martelo na direita e, mexia na geladeira do bar.

- Bom diz nada... Estou com essa máquina sem funcionar e o tubo do gás não quer voltar para o lugar, rosnou o dono, servindo o esperado café ao pesquisador, que, imediatamente, virou um Toninho.

Quando acabou de tomar o primeiro gole, eis que o homem quebrava a porradas o tal cano que insistia em não voltar ao lugar. "Se não vai por bem, vai por mal!", gritava, martelando furioso a máquina que, indiferente, mas humanizada, estava sendo punida pela teimosia.

Era uma questão de método.

O método luso-brasileiro que confunde bom senso com teimosia; que prefere o martelo ao especialista para colocar no lugar o delicado e teimoso ponteiro dos segundos, que se transformam em minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos...

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