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Cultura

Quero minha cota no tríplex

Para lembrar de Julie Christie, que minha geração amou como Lara, e ouvíamos o Tema de Lara e dançávamos ao som das balalaicas (seria isso mesmo?) em Doutor Jivago, tirei o DVD da prateleira, onde repousa há anos. Fui assistindo até que chegou o trecho em que, efetivada a revolução marxista, as pessoas começaram a ocupar e dividir as grandes casas, as mansões suntuosas de Moscou. Jivago se vê perdido naquele momento caótico. Era uma espécie de programa Minha Casa Minha Vida comunista, todos “recebendo” um teto. Não havia mais propriedades, cada pessoa ou família recebia uma “cota” e nela se instalava.

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Ignácio de Loyola Brandão

05 Fevereiro 2016 | 02h00

Foi essa palavra, cota, que me chamou a atenção, ao ler o noticiário do apartamento triplex no Guarujá, tristemente célebre. Tristemente porque me incluo no rol dos lesados pela famigerada cooperativa dos bancários. Anos atrás, até compareci a uma comissão de inquérito na Assembleia Legislativa, onde um deputado de nome Mentor, ou coisa semelhante, cada vez que ia me fazer uma pergunta, começava:

“Senhor Luiz Ignácio de Loyola Brandão...”.

Não respondi, ele insistiu irritado:

“Estou fazendo uma pergunta ao senhor”.

“Não, o senhor está perguntando ao presidente. Deve amá-lo sobremaneira. Não sou Luiz Ignácio. Sou apenas Ignácio de Loyola.”

“Pois então me diga, o senhor é cooperado da Bancoop?”

“Não, minha mulher é.”

“Então, não há perguntas, o senhor nem devia estar aqui. Quem paga a mensalidade é ela.”

“Talvez o senhor não tenha noção do que se chama família. Muito menos renda familiar. O contrato está em nome de minha mulher, mas decidimos comprar a unidade depois de conversas, avaliações financeiras, discussões, considerações conjuntas. A mensalidade sai de nossa renda familiar. Portanto, somos ambos cooperados.”

“Não tenho nada a perguntar, desconsidero sua presença aqui, senhor Luiz Ignácio de Loyola Brandão...”

Aquela CPI deu em nada. Nem sei se anda por aí. O que sei é que perdemos o apartamento, o grupo conseguiu se reunir, se desvincular da quadrilha formada, contratou-se uma construtora e, após anos, estamos pagando de novo o que já tínhamos pago. O PT nos deve uma boa quantia. Ainda vamos pagar mais um ano de mensalidades.

Ao ler o noticiário, a palavra cota do triplex me intrigou. Se o apartamento do Guarujá foi dividido em cotas, cadê os outros compradores? Quantas são as cotas? Posso trocar o que me devem por uma cota? Por que nós, roubados, não podemos ficar com uma cota no triplex?

O cinismo e a ironia são escárnios em cima dos brasileiros. Falar que o sítio do homem é um puxadinho? Eles sabem o que é um puxadinho? Revirando esses excrementos de nossa vida pública me lembrei de um episódio passado com o ex-presidente Harry Truman, quando deixou o posto nos Estados Unidos. Retirou-se para sua casa no interior, em Independence, Missouri, casa que ele e a mulher Bess tinham comprado quando se casaram. Ele era procurado por grandes empresas que ofereciam cargos altíssimos e recusava:

“Vocês estão oferecendo esse cargo ao presidente da nação. Não sou mais, fui”.

Ao deixar a presidência, Truman recebia um salário de US$ 112,56 (cerca de R$ 500,00, hoje). O parlamento soube um dia que ele respondia a centenas de cartas e pagava os selos do próprio bolso. Foi quando se criou um Fundo de Aposentadoria para ex-presidentes no valor de US$ 25.000 anuais. Um dia, ele foi homenageado em Washington. Foi em avião de carreira, pagou a passagem e o hotel, recebeu a honraria e regressou. Talvez não tenho sido grande estadista, como muitos dizem. Mas era íntegro.

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