Quem tem medo do estruturalismo?

Autor comenta análise feita por Alcides Villaça da obra Análise Estrutural do Romance Brasileiro, agora reeditado

AFFONSO ROMANO DE SANTANNA, ESPECIAL PARA O ESTADO; É ESCRITOR, ENSAÍSTA, CRÍTICO LITERÁRIO, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DRUMMOND, UM GAUCHE NO TEMPO (RECORD), O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2012 | 03h08

É sempre antipático responder críticas, mas a rejeição frontal à décima edição ampliada de Análise Estrutural de Romances Brasileiros (Editora da Unesp) e ao estruturalismo em geral, expressa na resenha do professor Alcides Villaça publicada no dia 7 de outubro no Caderno 2, me obriga a alguns esclarecimentos.

Quando apareceu a primeira edição desse livro (em 1973), Antonio Candido escreveu dois ensaios sobre a análise d'O Cortiço que eu fizera e eu o convidei para apresentar essa crítica no 2.º Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado em 1975.

Agora, com seu consentimento, publiquei seu texto nesse livro junto da minha resposta. Em carta, ele me disse que nossa polêmica era coisa rara na vida literária, onde se atacam pessoas e não ideias. Era o tempo da ditadura e o Departamento de Letras da PUC do Rio de Janeiro estava provocando uma revisão dos estudos literários.

Numa entrevista à revista Veja, aliás, Antonio Candido ressaltou o trabalho de renovação crítica que se fazia em nosso departamento. Com efeito, trouxemos até Michel Foucault para conferências. E na polêmica que sustentei com o professor Candido, ele reconhecia no meu trabalho "uma análise que faz progredir efetivamente o conhecimento do texto".

Não é o que pensa, 40 anos depois, o professor Alcides Villaça, da Unicamp. Na resenha publicada, aqui, nas páginas do Estado, ele entende que meu livro é um equívoco e o estruturalismo, por ser "sazonal", é algo que não tem nada a oferecer.

Da mesma maneira que divergia dos colegas que na época achavam que "a estilística", "os estilos de épocas"e a "crítica sociológica" eram "sazonais", discordo de Alcides Villaça, pois no miolo estruturalista há muita coisa a preservar.

Uma afirmativa do professor da Unicamp me chamou a atenção. Diz: "os ganhos de tão aplicado exercício com os romances ocorrem apesar do método". Isso é maravilhoso. É desligar a viagem do trajeto. Imaginem se alguém chega à minha casa depois de ter viajado de avião e eu não o recebo alegando que não acredito em aviões.

Foi o que ocorreu com a resenha de Alcides Villaça: ele é contra aviões, contra o estruturalismo enquanto veículo de análise literária, ele é contra o arsenal analítico que coloquei em movimento para ler algumas obras canônicas.

Isso equivale a dizer que de nada adiantaram as contribuições de Lévi-Strauss na antropologia, de Jakobson na linguística, de Freud e Lacan na psicanálise. Barthes e outros semiólogos perderam seu latim. Tantos filósofos, tantos seminários e em vários países e línguas e não adiantou nada, porque há quem insista em ficar nos anos 60. Já nessa época, Albee se perguntava: "Quem tem medo de Virginia Woolf?"

Formalização. Queiramos ou não, as estruturas existem. São construções simbólicas, mas fazem a realidade andar. Se o cientista não apreender o fenômeno num modelo ou fórmula, não tem como mostrá-lo a si mesmo e aos demais. A formalização existe na antropologia, na psicanálise, na linguística, nas ciências exatas e sociais e, acreditem, até no Ibope. O sistêmico, que tanto incomoda aquele resenhista, existe na natureza e na cultura. A análise literária não é um punhado de intenções, mas de concretizações.

Há um outro mal-entendido da parte de Alcides Villaça: a noção de narrativas de estrutura simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Dizer que esses modelos são um "binômio avassalador e perpétuo", sobre repetir errôneas afirmativas de apressadas leituras anteriores, é o mesmo que inviabilizar na matemática os conceitos de números pares e ímpares ou dizer que a estrutura digital baseada no 0 e no 1 não leva a nada. O simples e complexo são pontos de partida, não de chegada. Enfim, dizer que Fabiano foi reduzido a um "lexema" ou "morfema zero" é empobrecer a análise que fiz, não faz jus à inteligência do meu crítico.

Quanto à questão do estruturalismo/estrutura a que alude, dispensa lembrar que meus livros sobre Carlos Drummond de Andrade, sobre o "canibalismo e amoroso" e sobre o Barroco localizam estruturas sem serem "estruturalistas". E este Análise Estrutural de Romances Brasileiros faz uma crítica no interior do estruturalismo e vai além, muito além do estruturalismo.

Finalmente, concordando com ele que análise literária não é ciência - posto que Merleau Ponty já dizia que a ciência tem por fundamento algo que não é científico - a análise literária também não é pura intuição, "impressionismo", divagações eruditas e ideológicas, mas um produto o mais objetivo possível. O que interessa numa análise de texto é saber se depois dela o nosso entendimento do texto e da obra e a compreensão do autor foram modificados. As reedições desse livro, passada a "onda" estruturalista, talvez sejam a melhor resposta.

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