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Quem tem medo de Dalton Trevisan?

João Cezar de Castro Rocha

25 Maio 2012 | 22h 00

Anunciado esta semana como vencedor do Prêmio Camões, o autor paranaense consagrou uma galeria de personagens exemplarmente medíocres, sob o coerente signo da concisão

Dalton Trevisan (1925) é autor de uma das obras mais originais da literatura brasileira. Com sabor de paradoxo, es,sa originalidade foi conquistada através da recorrência obsessiva de temas, de personagens, de situações e de uma fidelidade quase perfeita à forma do conto - em sua extensa obra, a exceção é o romance A Polaquinha (1985).

Acrescente-se uma habilidade incomum para ampliar os efeitos linguísticos de seus textos a partir da redução aparentemente contraditória do universo das palavras, além do emprego deliberado de chavões. O resultado é uma estética da contenção; aliás, no duplo sentido da palavra: conciso e agônico.

O vampiro de Curitiba é um jogador de xadrez que sempre lança mão de idêntica abertura de jogo e adota um único sistema defensivo, porém nunca repete o xeque-mate! Detalhe relevante, porque ele costuma vencer suas partidas.

Recordemos a trajetória fundamental do autor de Cemitério dos Elefantes (1964).

Com sabor de paródia, Quem Tem Medo de Vampiro?, reunido em Dinorá (1994), talvez seja um ponto de partida conveniente. Pelo avesso, o conto oferece um retrato da literatura (e mesmo de aspectos da biografia) de Dalton Trevisan. O texto incorpora satiricamente as ressalvas mais comuns feitas a seu estilo, transformando em matéria ficcional a incompreensão de certos críticos. Leia-se a abertura: 

“Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens. Aqui o eterno João: ‘Conhece que está morta’. Ali a famosa Maria: ‘Você me paga, bandido.’”

O retorno de personagens em narrativas do mesmo autor não é exatamente novidade e nem precisamos mencionar a Honoré de Balzac. Por exemplo, Quincas Borba surge como personagem em Memórias Póstumas de Brás Cubas e posteriormente volta no romance homônimo. 

Contudo, Dalton Trevisan vira o recurso de ponta-cabeça. Nos casos de Balzac e Machado, os personagens que retornam são tipos excepcionais. Na literatura de Trevisan, “João” e “Maria” retornam precisamente por não possuírem traços singulares. 

Ora, se a galeria de personagens é escolhida por ser exemplarmente medíocre, mesmo banal, a linguagem que os define não pode ser exuberante, muito menos barroca. A repetição, tornada método de escrita, exige uma linguagem sistematicamente esvaziada, quase anônima. 

Retorne-se ao conto. De novo, pelo avesso, o autor explicita seu projeto linguístico e temático: 

“Quem leu um conto já viu todos. Se leu o primeiro pode antecipar o último - bem antes que o autor. (...) Mais de oitenta palavras não tem o seu pobre vocabulário. O ritmo da frase, tão monótona quanto o único tema, não é binário nem ternário, simplesmente primário. Reduzida ao sujeito sem objeto, carece até de predicado - todos os predicados. Presume de erótico e repete situações da mais grosseira pornografia. No eterno sofá vermelho (de sangue?) a última virgem louca aos loucos beijos com o maior tarado de Curitiba. (...)”

Naturalmente, o leitor deve inverter o sentido das afirmações, a fim de avaliar a superioridade dessa concepção de literatura, compreendendo na repetição metódica a diferença almejada por Trevisan. 

Escassez não é obrigatoriamente sinônimo de precariedade. Afinal, se literatura é a arte combinatória do propriamente humano, 80 palavras permitem a reinvenção infinita de um núcleo restrito de histórias. Isso para não mencionar os jogos literários que Trevisan inclui com sutileza no “único” conto que reescreve sem parar.

Entre 1946 e 1948, ele foi editor de importante revista, que assim definiu: “O movimento de renovação inventado por Joaquim não tem ambições modernistas: tem ambições modernas.” Por isso, no seu conto, menos é sempre mais. Esteta da concisão, Trevisan vislumbra no conto a possibilidade de um haicai narrativo.

Leia-se, então, O Vampiro de Curitiba, publicado no livro homônimo, saído em 1965. O texto apresenta um personagem-síntese das obsessões do autor: “Nelsinho, o Delicado”, definido com poucas, mas definitivas pinceladas: “Pobre rapaz na danação dos vinte anos.” O nome do personagem não deixa de trazer à baila o universo de Nelson Rodrigues. Ademais, o conto alude à linguagem bíblica, à obra de Machado de Assis, à poesia de Carlos Drummond de Andrade:

“Olhe as filhas da cidade, como elas crescem: não trabalham nem fiam, bem que estão gordinhas. Essa é uma das lascivas que gostam de se coçar. Ouça o risco da unha na meia de seda (...).”

A breve menção à passagem bíblica, acerca da beleza espontânea dos lírios do campo, amplifica o efeito de dessacralização provocado pela sequência imediata: “bem que estão gordinhas”! 

De igual modo, na sua peregrinação, o vampiro Nelsinho, na urgência típica dos 20 anos, flerta não apenas com mulheres as mais diversas, mas também com a literatura.

Recorde-se outra passagem do conto: 

“Cedo a casadinha vai às compras. (...) Ó bracinho nu e rechonchudo - se não quer por que mostra em vez de esconder? -, com uma agulha desenho tatuagem obscena. Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho.”

Malicioso, o narrador pisca um olho para Machado de Assis, na alusão a Uns Braços. Nesse conto, Inácio, um rapaz de 15 anos, não resiste à visão dos braços nus de D. Severina, “belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina”.

 Ao mesmo tempo, o narrador enfrenta dilema semelhante ao impasse do poeta drummondiano. Leiam-se os versos iniciais de O Lutador: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco (...).” Basta substituir “palavras” por “mulheres”, e Nelsinho, o Delicado, não hesitaria em se engajar na porfia.

O trânsito entre repetição, esvaziamento da linguagem e jogos literários se encontra no título do primeiro livro de Dalton Trevisan - isto é, o primeiro reconhecido, pois ele renegou suas publicações anteriores. Refiro-me a Novelas Nada Exemplares (1959), cuja menção a Miguel de Cervantes não passou incólume.

Otto Maria Carpeaux reagiu com ambiguidade ao livro, que obteve o Prêmio Jabuti. No calor da hora, ele se viu compelido a ressalvar: “A pretensão inédita desse título parece desafio à crítica.” A resenha não é exatamente favorável, mas tem o mérito de assinalar os eixos da literatura do autor de A Guerra Conjugal (1969) - aliás, adaptado para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade.

No juízo de Carpeaux: “Os acontecimentos nas novelas de Cervantes criam nos personagens um estado de alma próprio ‘para el hombre salvarse’. Nas novelas nada exemplares do Sr. Dalton Trevisan, os acontecimentos criam nos personagens um estado de alma para o homem perder-se.” 

Sem dúvida.

A não ser que esse homem seja leitor de Dalton Trevisan.

Nesse caso, ele intui que a esperança de salvação ou o temor da condenação pouco importam ao vampiro (que todos nós somos). 

E não apenas em Curitiba. 

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMENTADA DA UERJ