Quatrocentão 1.0

Dinheiro, não tenho. Mas descendo de uns franceses que chegaram a SP há 400 anos

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

14 Março 2017 | 02h00

Para quem chegou a São Paulo a bordo de um busão da Cometa, e nem era leito, quase meio século atrás, sem emprego e com finanças rarefeitas (repare no tom de autobiografia de forasteiro que fez fortuna), deveria servir de consolo a descoberta de que é, de pleno direito, isso que alguns enchem a boca para chamar de quatrocentão, ainda que 1.0. 

Preferiria o meu em dinheiro, claro. Tivesse nascido um século antes e poderia dizer, como o poeta, que tive ouro, tive gado, tive fazendas. Cheguei tarde. Para quatrocentão 2.0, falta-me grana, além de empáfia. O básico, porém, está na mão: o lustroso pedigree proporcionado por ancestrais de sangue francês que aqui viveram no século 17 e que vieram a dar nome a duas ruas paulistanas. 

Não, não é nos Jardins, nem no Morumbi ou Higienópolis, nem mesmo em Perdizes, bairro onde tenho modesta residência, e sim, vejo aqui no Google, na Vila São Vicente e no Tatuapé, localidades nas quais placas de rua buscam manter acesa a hoje desbotada memória de meus remotos avôs Cláudio e Estêvão Furquim. 

Confesso, envergonhado, não saber o que fizeram eles para merecer tal honraria, e que ainda nem sequer fui conhecer as vias públicas a que seus nomes foram dados. Mas firmo aqui o compromisso, do qual tomo você por testemunha: dia desses vou lá, em peregrinação – ou será safári? – sentimental, para verificar se a família tem sido bem tratada.

Já contei que, na contramão de artrite & artrose, gosto de subir pelos galhos de minha árvore genealógica – ou melhor, de descer por suas raízes, as quais, espero, não haverão de ser superficiais como as dessas tipuanas que temporais paulistanos mais encorpados facilmente põem abaixo. 

Não pretendo, com tais expedições, garimpar armas & barões assinalados para respaldar orgulhos e vaidades heráldicas, que de resto nunca tive. Conheço meu tamanho. Se um dia me bater vontade de ostentar brasão, vou eu mesmo desenhá-lo, estando desde já decidido que, para ser fiel a certa maldição familiar, um dos campos será ocupado por um cifrão provido de asas, prestes a decolar. 

O que me move, nessas buscas, é a possibilidade de topar com gente interessante, de preferência fora do padrão. Quem sabe bizarrias semelhantes à Maria Francisca das Chagas Werneck – senhorita que, sendo portadora de pilosidades faciais bem mais densas do que um mero buço, acabou por se inscrever, nos anais familiares, como “a prima barbada de Maçambará”, o distrito de Vassouras onde o pai tinha fazenda em meados do século 19. 

Convido você a conferir nas páginas de No Tempo dos Barões, deliciosa obra de outra prima, a Maria Werneck de Castro, essa sem um fio macho a macular o rosto. Assistida até depois de falecida pelo irmão Moacir, o saudoso escritor e jornalista, pode ter sido sua a ideia de enriquecer o texto com a reprodução de um retrato a óleo em que a Maria Francisca exibe viçosa barba, dessas a que, por permitirem o trânsito dos insetos anopluros de uma orelha a outra, se dava também o nome de “passa-piolho”. Não teve a criatura pejo algum em se mostrar assim ante os pincéis de um artista europeu, se não me engano Claude-Joseph Barandier, integrante da missão artística francesa que, em mais de um sentido, pintou no Brasil no século 19. 

A Maria Francisca não primava pela beleza, mas não chegava a ser um caso de feiura, e muito menos era um tribufu, como se diz em Minas. Não seria justo pendurá-la na galeria das moças que, sendo de Vassouras, sejam também de vassoura, dessas de voar, não de varrer. Vá ao livro, veja a foto e me diga se a parenta não tinha seus encantos, alguns deles, quem sabe, camuflados sob um vestido verde de decote largo e raso. E a quem puser malícia posso adiantar que, excetuada a barba, nada indica que a prima precisasse acomodar os pés em sapatos de numeração avantajada.

Esse foi, até agora, o achado mais graúdo a que me levou minha curiosidade genealógica. Sigo escarafunchando o baú familiar. Algum tempo atrás, pedi a um velho camarada de colégio, hoje sumidade da genética, que me submetesse ao chamado teste de ancestralidade genômica. A coleta de material no interior de minhas bochechas, com um prosaico cotonete, já me permitiu saber que sou 0,8% índio e outro tanto afrodescendente, como agora é de bom-tom dizer, já não sendo, pois, o caso de indagar, como na canção do Caetano, se eu sou neguinha.

Quanto os restantes 98,4% do blend genético que constitui minha pessoa, bem, este é assunto que requer um espaço no momento esgotado. Estou disposto a retomar o papo na próxima rodada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.